Infiltrado na Klan (2018): A realidade preto no branco

Baseado em fatos reais, Infiltrado na Klan (2018) acompanha o policial negro Ron Stallworth (John David Washington), que após participar de um evento organizado por ativistas negros, é inspirado pela estudante Patrice (Laura Harrier) e decide se infiltrar em um grupo da Ku Ku Klan para conduzir uma investigação e desmantelá-los por dentro. Para isso, conta com a ajuda do colega Flip Zimmerman (Adam Driver), um policial branco que assume a identidade de Ron nos encontros presenciais da seita, enquanto o verdadeiro Ron mantém contato por telefone.

Uma rápida consulta à biografia do personagem principal mostra que foram tomadas uma série de liberdades narrativas para acomodar os fatos dentro de uma ficção discursiva mais palatável, ainda que falaciosa. Na contramão da preocupação documental e inevitavelmente politizada que Spike Lee demonstrou no seu mega-documentário sobre a devastação do furacão Katrina, Os Diques se Romperam (2006), a abordagem revisionista aproxima o filme de algumas convenções narrativas que não fazem nenhum favor à trama para fabricar alguns previsíveis momentos de tensão dramática no decorrer dos acontecimentos. 

Resulta que o que é original não é bom e o que é bom, não é original, o que coloca como um filme diametralmente oposto, ao menos neste sentido, a outros filmes do diretor, como Faça a Coisa Certa (1985) e Malcolm X (1991), obras absolutamente indispensáveis dentro da história do cinema mundial. Como na maioria de seus trabalhos, Lee claramente tenta transmitir uma mensagem anti-racista, mas, neste caso, sabota a si mesmo com um didatismo ainda mais incisivo que o seu habitual. Apesar de sempre ter sido brusco e seco, Lee conduzia o espectador sem desrespeitar sua inteligência. 

Em Infiltrado na Klan, tal sutileza se ausenta, muitas vezes, das piores maneiras - quando ele quer que você ria, ele mostra um personagem gargalhando, quando ele quer que você o leve a sério, ele apresenta um longo monólogo de sermão onde pessoas seguram imagens que reforçam ainda mais o ponto onde se quer chegar. Em uma das cenas mais escrachadas do filme, um dos colegas policiais de Ron diz a ele que algum dia os Estados Unidos elegerão uma pessoa que adotará um racismo institucional mascarado por questões menos contenciosas. Ron retruca que "Isso nunca vai acontecer", e seu colega branco o repreende: "Acorde". 

O filme parece sofrer da mesma ingenuidade do seu protagonista ao retratar, com a exceção do líder David Duke (Topher Grace), os membros da Ku Ku Klan como completos imbecis, o que seria ótimo em uma comédia, o que não é inteiramente o caso. Nenhum deles soa como pessoas reais, e vê-los soltando expressões racistas em cada frase apenas condiciona o público a encará-los como caricaturas, cujas retóricas se tornam contraproducentes à ideia de que o cidadão comum se identificaria com tais visões de mundo, o que claramente é contestado na sequência final - e documental - do longa.

A realidade, no entanto, pouco interessa ao discurso fílmico proposto por Lee, que ignora o histórico amplamente documentado do envolvimento de policiais com a KKK e cria uma versão dos fatos que não contribui para a discussão que ambiciona. As quebras da quarta parede, o ritmo lento e falta de coesão tonal do filme são coroadas por um final no qual os personagens comemoram uma armação contra um policial racista como se fosse algum tipo de vitória moral e vindicação concreta, o que ironicamente sintetiza o equívoco discursivo do filme como um todo. 

Spike Lee é melhor que isso. Ou era.

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