Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald (2018): O feitiço se volta contra o feiticeiro

Ao longo dos sete livros da saga Harry Potter, sua autora J. K. Rowling se provou uma talentosa contadora de histórias e uma exímia gestora de uma franquia que se manteve em constante expansão com uma série cinematográfica de oito filmes, três livros derivados, dezenas de jogos eletrônicos, uma peça teatral, um parque temático e uma enciclopédia virtual interativa, entre tantos outros exemplos de desdobramentos da marca que a transformou na primeira escritora bilionária.

Após a conclusão da série de filmes de Harry Potter em 2011, Rowling anunciou uma nova franquia cinematográfica, na qual ela seria a roteirista e David Yates, que comandou quatro dos oito filmes de Harry Potter, retornaria como diretor. Nascia Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016), que propunha retornar ao passado para aprofundar elementos importantes do universo bruxo, alçando personagens terciários à protagonistas e explorando novas ambientações.

O filme, protagonizado por Newt Scamander (Eddie Redmayne) foi bem recebido pela crítica e pelos fãs saudosos, e não demorou para que Rowling anunciasse que viriam mais quatro sequências. O segundo filme da saga, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (2018) retoma a trama poucos meses após os acontecimentos do primeiro longa e segue expandindo o escopo da saga, trazendo de volta o vilão Gerardo Grindelwald (Johnny Depp) e os coadjuvantes Jacob (Dan Fogler), Queenie (Alison Sudol), Tina (Katherine Waterson) e Credence (Ezra Miller). 

Os problemas do filme, contudo, começam na apresentação das novidades: apesar de promissora, a ambientação parisiense e os novos personagens, como Teseu (Callum Turner), o irmão de Newt, Leta Lestrange (Zöe Kravitz), sua antiga paixão, e Nagini (Claudia Kim), se perdem em meio à uma sequência de acontecimentos desnecessariamente complicada que expõem novamente e com ainda mais clareza um dos problemas da nova franquia: a dificuldade de confluir as múltiplas tramas e equilibrar o desenvolvimento de novas ideias com as referências e explicações de elementos já conhecidos da saga.

Como roteirista, Rowling fica devendo ao seu próprio material, que não conta com o filtro da adaptação eficiente de Steve Kloves, que condensou de maneira bastante eficiente as longas histórias dos livros da autora. O resultado é uma narrativa que desperdiça seu competente, porém superlotado elenco em cenas que parecem criadas exclusivamente para justificar fragilmente a função e motivação dos personagens na história, parecendo ter em mente sempre uma gratificação ou resolução nas sequências vindouras.

Sem o apoio do roteiro, é ingrata a tarefa do montador Mark Day, que tem dificuldade em ordenar e alternar os múltiplos focos do filme, o que obriga a trama a avançar lentamente, abordando seus temas de maneira superficial e diluindo o protagonismo entre os personagens de maneira pouco eficiente, tornando seu personagem principal de fato, Newt Scamander, em um mero recurso para costurar a confusa narrativa.

A direção insossa de David Yates continua sendo elevada pelo impecável e consistente trabalho de outros departamentos da produção, chefiados por veteranos da franquia como o designer de produção Stuart Craig, os diretores de arte Martin Foley e Lydia Fry, a figurinista Colleen Atwood e o compositor James Newton Howard. Infelizmente, com esta mal enjambrada sequência, a franquia mostra que continua enchendo os olhos com criaturas fantásticas e feitiços, mas perdeu sua magia.

Stan Lee: um super-herói real

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Stan Lee, nascido Stanley Martin Lieber (28 de dezembro de 1922 - 12 de novembro de 2018) foi uma das figuras mais importantes e influentes do universo das histórias em quadrinhos, sendo responsável pela criação de inúmeros personagens icônicos do imaginário da cultura pop.

Sua trajetória profissional teve início em 1939, como assistente na Timely Comics. Sua estréia nos quadrinhos, porém, só ocorreu em 1941, com uma história do Capitão América, a qual assinou com o pseudônimo Stan Lee. No mesmo ano, com pouco mais de 18 anos, Lee assumiu como diretor interino. O tino para os negócios o levou a permanecer como redator-chefe da divisão de revistas em quadrinhos, bem como diretor de arte durante grande parte desse tempo.

Em 1942, sua vida tomaria outro rumo com o ingresso no Exército dos Estados Unidos, onde trabalhou na Divisão de Filmes de Treinamento, escrevendo manuais, filmes de treinamento, slogans e, ocasionalmente, desenhando. Lee retornou do serviço militar somente em 1945, ao final da guerra. Na época, apesar de ter assinado algumas histórias sob o selo da Atlas Comics, a carreira como quadrinista ainda não havia realmente deslanchado, e Lee começava a cogitar uma mudança de profissão. 

Porém, em meados dos anos 50, o editor Martin Goodman pediu que Lee criasse uma nova equipe de super-heróis que pudesse competir com o sucesso da Liga da Justiça, da rival DC Comics. A esposa de Lee o aconselhou a criar histórias que lhe interessassem, já que não tinha nada a perder. Lee aceitou o conselho e deu aos seus super-heróis uma humanidade defeituosa, uma mudança dos arquétipos ideais que eram tipicamente escritos para pré-adolescentes. Até então, a maioria dos super-heróis era idealmente perfeita, sem problemas sérios e duradouros. Lee revolucionou ao introduzir personagens complexos e naturalistas que poderiam ser melancólicos e vaidosos, brigavam entre si e se preocupavam em pagar as contas e impressionar as namoradas.

O historiador de histórias em quadrinhos Peter Sanderson escreveu que na década de 1960:
“A DC era o equivalente dos grandes estúdios de Hollywood: após o brilhantismo da reinvenção de DC do super-herói ... no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, havia se deparado com uma seca criativa no final da década. Havia uma nova audiência para os quadrinhos agora, e não eram apenas as criancinhas que tradicionalmente liam os livros. A Marvel dos anos 1960 foi, à sua maneira, o equivalente à Nouvelle Vague francesa. A Marvel foi pioneira em novos métodos de contar histórias e caracterização de quadrinhos, abordando temas mais sérios e, no processo, mantendo e atraindo leitores em sua adolescência e além.”
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Juntamente com o artista Jack Kirby, Lee criou o Quarteto Fantástico, baseado na antiga equipe de super-heróis de Kirby, Challengers of the Unknown, publicada pela DC Comics. A popularidade imediata da equipe levou Lee e os ilustradores da Marvel, antiga Atlas Comics, a produzirem uma série de novos títulos. Novamente trabalhando com Kirby, Lee co-criou o Hulk, Thor, Homem de Ferro e os X-Men; com Bill Everett, criou o Demolidor; com Steve Ditko, o Doutor Estranho e o personagem de maior sucesso da Marvel, o Homem-Aranha, todos dentro de um universo compartilhado. Em seguida, Lee e Kirby reuniram vários de seus personagens recém-criados no título de Os Vingadores e resgataram personagens dos anos 1940, como Namor, o Príncipe Submarino e o Capitão América. 

Ao longo da década de 1960, Lee escreveu, dirigiu e editou a maior parte da série da Marvel. Para manter sua carga de trabalho e cumprir prazos, Lee usou um sistema usado anteriormente por vários estúdios de quadrinhos, mas que devido ao seu sucesso, ficou conhecido como o "Método Marvel". Tipicamente, Lee discutia uma história com os desenhistas e preparava uma breve sinopse ao invés de um roteiro completo. Com base na sinopse, o desenhista preenchia o número de páginas necessário, desenhando a narrativa de painel a painel. Depois, Lee escrevia a o texto nos balões e supervisionava as letras e as cores.

Após a saída de Ditko da Marvel em 1966, John Romita Sr. tornou-se colaborador de Lee em O Espetacular Homem-Aranha, que em um ano, tomou o lugar do Quarteto Fantástico como o principal título da empresa. As histórias de Lee e Romita se concentravam tanto nas vidas sociais e universitárias dos personagens quanto nas aventuras do Homem-Aranha. Nesta época, as histórias passaram a referenciar questões como a Guerra do Vietnã, eleições políticas e ativismo, além de personagens que se tornariam centrais à Marvel, como o Pantera Negra - um rei africano que se popularizou como o primeiro super-herói negro.

Em 1972, Lee parou de escrever revistas em quadrinhos mensais para assumir o papel de editor. Sua colaboração final com Jack Kirby, The Silver Sufer: A Ultimate Cosmic Experience, foi publicada em 1978 como parte da série Marvel Fireside Books e é considerada a primeira graphic novel da Marvel. Nos anos seguintes, Lee se tornou uma figura pública para a Marvel Comics e se mudou para a Califórnia em 1981 para desenvolver as propriedades televisivas e cinematográficas da Marvel. Desde então, foi produtor executivo e fez aparições em dezenas de adaptações de suas criações para o cinema. 

Ocasionalmente, Lee retornou aos quadrinhos, escrevendo para obras desenhadas por diversos quadrinistas famosos, como o artista francês Mœbius. Lee foi brevemente presidente da Marvel, mas em seguida se afastou para se tornar editor, retomando contato com o processo criativo de tanto gostava.

Em 1994, foi introduzido no Hall da Fama do Prêmio Will Eisner da indústria de quadrinhos e no Jack Kirby Hall of Fame no ano seguinte. Lee também recebeu uma Medalha Nacional de Artes em 2008. Seu último trabalho, a graphic novel digital “God Woke”, com texto baseado em um poema que apresentou no Carnegie Hall em 1972, foi apresentada na na Comic Con International 2016. A versão impressa da obra ganhou em 2017 o prêmio “Outstanding Books of the Year” do Independent Voice Award.

Stan Lee deixou um legado inestimável ao universo do entretenimento e cultura pop, trazendo humanidade à histórias fantasiosas e mostrando que podemos encontrar o heroísmo que vemos nas páginas de quadrinhos nas ações mais cotidianas, basta que olhemos para dentro de nós mesmos.

Festival Primeiro Plano 2018: do preto e branco à cores

A união perante tempos difíceis. É essa a força motriz da 17ª edição do Primeiro Plano - Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades, que acontece entre os dias 5 e 10 de novembro. Após se mostrar resistência no ano passado, o festival retorna com o intuito de unir as multiplicidades e trazer as possibilidades de renascimento diante das atuais perspectivas sociais e culturais. Confira o que vai rolar:

Estreia de longas


Quem abre esta edição é “Os Jovens Baumann”, de Bruna Carvalho Almeida, um suspense no estilo found footage que investiga o desaparecimento dos herdeiros da família Baumann no verão de 1992. O clima eletrizante continua na segunda noite da programação, com a exibição do thriller “O Animal Cordial”, de Gabriela Amaral Almeida. Abordando várias temáticas sociais através dos mecanismos do gênero de terror, a diretora explora as diversas possibilidades de violência quando um restaurante é assaltado. O elenco conta com nomes como Murilo Benício, Irandhir Santos, Luciana Paes e Humberto Carrão.
“Pela Janela” chamou a atenção em festivais internacionais, como o de Roterdã.
Na quarta-feira, o drama de Caroline Leone, “Pela Janela”, promete levar a audiência pela jornada de autodescoberta de Rosália (Magali Biff), uma operária de 65 anos que, após dedicar toda a sua vida ao trabalho em uma fábrica, é demitida. A noite de quinta-feira fica por conta de “Vende-se Esta Moto”, de Marcus Faustini. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri na Mostra Novos Rumos, do Festival do Rio, com a história do desempregado Xéu (João Pedro Zappa) que é pressionado por sua companheira grávida, Lidiane (Mariana Cortes), a vender sua moto.

O argentino "A Cama", de Monica Lairana, é a atração da sexta-feira, seguindo as últimas horas de um casal que, após 30 anos, decidem se separar. Já no sábado, a prata da casa “IMO”, de Bruna Schelb, agita a Mostra Audiovisual de Juiz de Fora durante a tarde, enquanto a noite fica reservada para o dominicano “O Homem que Cuida”, de Alejandro Andújar.

Mostras competitivas


Cena de “Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo"
Das 300 inscrições recebidas, a curadoria do festival escolheu 49 curta-metragens, sendo 23 para a Mostra Competitiva Mercocidades e 27 para a Mostra Competitiva Regional. A Mercocidades, dedicada a produções de diretores estreantes do Brasil e de toda a América do Sul, recebeu a maior parte das submissões: 250. Enquanto isso, na Regional, o que chama a atenção é o número expressivo de estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) presentes na programação, o que reforça o poder e a importância do cinema universitário na região.

Na sessão de abertura, a ganhadora do Prêmio Incentivo na Mostra Regional do ano passado, Natália Reis, retorna com o curta-metragem, “Para atravessar contigo o deserto do mundo".

Exibições especiais


“O Animal Cordial” recebe uma sessão extra na quarta-feira.
A busca por maior inclusão assume um foco ainda maior nesta edição. O festival traz um número maior de sessões com audiodescrição e legendagem descritiva, duas delas sendo voltadas para o público infantil. Além disso, o longa-metragem "Pela Janela" volta a ser exibido na quinta-feira à tarde com recursos de acessibilidade.

A inclusão também assume um caráter geográfico. Uma das novidades deste ano é a exibição extra do longa-metragem “O Animal Cordial” no Shopping Jardim Norte, fora da região central da cidade.

Eventos paralelos


"O Homem que Cuida" é um exemplo de co-produção latino-americana, sendo produzido por três países: Brasil, República Dominicana e Porto Rico.

Para além da exibição de filmes, o festival ainda oferece oficinas, debates e encontros. Durante toda a semana, três oficinas são oferecidas por profissionais da indústria brasileira. Este ano, os temas Correção de Cor (Color Grading), Edição de Som e Documentário.

No sábado, o Encontro de Coprodução Audiovisual na América Latina debate as possibilidades e as dificuldades da crescente tendência de parcerias entre países latinos na produção cinematográfica. Além disso, diariamente, às 14h, na Funalfa, os integrantes das mostras competitivas se reúnem para debater seus curtas-metragens.

Gostou? Você pode conferir mais detalhes da programação no site do Festival!

15 filmes para conferir no Festival do Rio


“Para enfrentar estes tempos, a recomendação é uma só: vá ao cinema.” É com estas palavras que o Festival Internacional do Rio comemora sua vigésima edição, entre os dias 1º e 11 de novembro. A programação conta com impressionantes 200 filmes de mais de 60 país, sendo exibidos em cerca de 20 locais espalhados por toda a capital carioca.

Ainda não sabe o que assistir? Com base nos festivais estrangeiros e na recepção dos críticos, nós separamos uma lista de 10 filmes diversificados que podem te ajudar a dar o pontapé inicial no festival deste ano!

1) Assunto de Família

Manbiki Kazoku | Hirokazu Koreeda | Japão | 2018

A classe média japonesa ganha uma abordagem complexa e cheia de nuances no drama ganhador da Palma de Ouro no Cannes de 2018. O premiado cineasta Hirozaku Koreeda retorna para as telonas com a história de uma família que se sustenta de pequenos roubos. Quando encontram uma criança perdida na rua, marcada fisicamente por abusos domésticos, decidem a acolher, mas acabam se envolvendo em um escândalo ao serem acusados de sequestro. Prezando os pequenos detalhes, como o olhar e o toque, o filme constrói a dinâmica única desta família, que possuiu um código moral diferente da sociedade ao seu redor.

2) Infiltrado na Klan

BlacKkKlansman | Spike Lee | EUA | 2018

Em seu novo filme, o visionário Spike Lee narra a história de Ron Stallworth, o policial negro que conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan, organização extremista que prega ideias racistas nos Estados Unidos desde o final do século 19. O roteiro espirala numa investigação da discriminação institucionalizada da América do Norte, enquanto mantém a natureza irônica que consagrou Lee, misturando uma pitada de comédia em assuntos sérios e chocantes. O diretor não é o único grande nome da ficha técnica, que também inclui Jordan Peele (Corra!), como produtor, e Adam Driver (Star Wars), no elenco.

3) Em Chamas

Beoning | Lee Chang-dong | Coreia do Sul | 2018

Livremente baseado em um conto do escritor japonês Haruki Murakami, esse eletrizante suspense é centrado na amizade de Haemi (Jun Jong-seo) e Jongsu (Ah-in Yoo) que é envolta em mistérios com a chegada de Ben (Steven Yeun, de "The Walking Dead"). O filme foi a sensação do ano no circuito dos festivais e arrancou elogios por onde passou. Esse é o primeiro filme do diretor em oito anos e é o representante sul-coreano na corrida pelo Oscar.

4) Guerra Fria

Zimna wojna | Pawel Pawlikowski | Polônia | 2018

Uma impetuosa história de amor na Polônia do pós-Guerra ganha vida através da maestria de Pawlikowski, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com o drama “Ida” em 2015. A história deixa transpirar um tom extremamente pessoal, tanto que o diretor não apenas dedica o filme ao seus pais, como também nomeia os protagonistas apaixonados em homenagem à eles. Além da narrativa intensa, amplificada pelo visual preto-e-branco, o romance chamou a atenção da crítica por sua trilha sonora, que dá o toque final na criação de um longa-metragem extremamente atmosférico.

5) Tinta Bruta

Tinta Bruta | Filipe Matzembacher, Márcio Reolon | Brasil | 2018
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Chamado de “um estudo de personagem hipnoticamente íntimo” pelo The Hollywood Reporter, a produção brasileira foi um dos grandes destaques no Festival de Berlim deste ano, conquistando o Teddy Bear - prêmio dedicado a narrativas LGBTQ+. Ambientado em Porto Alegre, Pedro (Shico Menegat) é um jovem socialmente reprimido que só encontra conforto nas performances com tinta neon que faz em bate-papos onlines. Sua vida sai dos eixos quando, além de enfrentar um processo criminal e a partida de sua irmã, ele descobre que um outro homem está copiando sua técnica na internet. O drama promete ser um retrato assombroso do afeto e da solidão em uma época na qual a sensação instantânea de aconchego pode ser encontrada à alguns cliques de distância.

6) Matangi / Maya / M.I.A.

Matangi / Maya / M.I.A. | Stephen Loveridge | Reino Unido | 2018

“Live fast, die young, bad girls do it well”. Refugiada e filha do fundador de um grupo de resistência tâmil no Sri Lanka, a vida pessoal da rapper M.I.A. é tão cheia de altos e baixos quanto sua vida pública. O documentário, editado pelo melhor amigo da cantora, é produto de gravações feitas por ela mesma através das décadas, abordando desde a guerra civil e o genocídio em seu país até os bastidores do sucesso musical estrondoso. Muito além de um olhar intimista do micro, o filme é um comentário do macro, abordando questões como perseguição midiática, imigração e preconceito.

7) Cafarnaum

Capharnaüm | Nadine Labaki | Líbano | 2018

A diretora libanesa Nadine Labaki deixa de lado as sutilezas ao contar a história de Zain (Zain Al Rafeea), um garoto de 12 anos que decide processar seu pai por trazerem ele ao mundo. A produção divide a crítica entre aqueles que acham o roteiro oportunista, apenas indo em busca de lágrimas da plateia; e aqueles que o consideram uma ilustre execução de um argumento complexo. Em um aspecto, todos concordam: as atuações são espetaculares. O filme é o representante do Líbano para o Oscar de 2019.

8) Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos

Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos | João Salaviza, Renée Nader Messora | Brasil | 2018

O principal conflito deste drama luso-brasileiro é a batalha entre tradição e modernidade. Ihjãc, um jovem do povo Krahô, é surpreendido por dois visitantes: o primeiro é o espírito de seu falecido pai, se queixando da ausência de uma celebração para encerrar o período de luto; o segundo é uma arara, que traz consigo o anúncio que o futuro do menino é se tornar um xamã. Infeliz e sentindo intensas dores, Ihjãc decide deixar a aldeia em busca de ajuda na cidade vizinha. Ambientado no Tocantins, o filme foi rodado em 16mm, para aproveitar os tons terrosos, orgânicos e quentes do cenário. Foi destaque no Cannes 2018, sendo o ganhador da mostra Um Certo Olhar.

9) Diamantino

Diamantino | Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt | Brasil | 2018

Esperançoso, satírico e fantasioso, Diamantino constrói uma alegoria política a partir de um astro do futebol que termina sua carreira na obscuridade. Partindo em uma jornada surreal em busca de um novo propósito de vida, o jogador (interpretado por Carloto Cotta) enfrenta grandes questões que assolam o cenário mundial, como o neofascismo e a crise de refugiados - sem perder o tom bem-humorado. O filme é uma co-produção entre Portugal, Brasil e França e foi o escolhi pela Semana da Crítica no Cannes 2018.

10) O Grande Circo Místico

O Grande Circo Místico | Cacá Diegues | Brasil | 2018

O festival vai dar a chance do público conferir o representante brasileiro ao Oscar Estrangeiro do próximo ano. O enredo segue cinco gerações da mesma família circense, desde a inauguração do espetáculo em 1910 até os dias atuais. O roteiro é baseado no poema de mesmo nome do alagoano Jorge de Lima, contido no livro "A Túnica Inconsútil" de 1938. Entre os nomes no elenco estão Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Jesuíta Barbosa e Mariana Ximenes.

11) O Hotel às Margens do Rio

강변 호텔 | Hong Sang-soo | Coreia do Sul | 2018

Younghwan (Ki Joobong) é um velho poeta que sente sua morte se aproximando. Ele se refugia em um pacato hotel ao lado do rio Han, convidando seus filhos para passarem os últimos dias juntos. Os cenários gelados do inverno coreano dão margem à uma história melancólica que se desenrola em dois núcleos: os conflitos familiares e os mistérios integrantes da recém-chegada Sang-Hee (Kim Min-hee), que se hospeda no hotel para se recuperar de um término. Bem recebido pela crítica em diversos festivais, o drama chamou a atenção por quebrar a estética narrativa da filmografia de Sang-soo.

12) Tarde Para Morrer Jovem

Tarde Para Morir Joven | Dominga Sotomayor Castillo | Chile | 2018

Descrito como uma mistura de “Capitão Fantástico” com Lucrecia Martel, o drama adolescente chileno conquistou o público e a crítica por onde passou. Depois de décadas de uma das ditaduras militares mais violentas da América Latina, o Chile se redemocratiza no início da década de 1990. No interior, bem longe dos perigos da cidade, uma família se reúne para comemorar o Ano Novo e o fim do regime autoritário. Partindo do ponto de vista dos integrantes mais jovens do clã, um tom de ameaça e incerteza ainda parece pairar no ar. Extremamente atmosférico e sensorial, o filme fez de Dominga Sotomayor Castillo a primeira mulher a ganhar o Leopardo de Melhor Direção no Festival de Locarno.

13) Não Me Toque

Nu mă atinge-mă | Adina Pintilie | Romenia | 2018

Transitando entre realidade e ficção, a produção segue a vida de três pessoas que buscam maior liberdade sexual e conexão emocional. Do terror de novas experiências aos desafios de reconhecer vulnerabilidades, o filme constrói um olhar experimental, minucioso e reflexivo sobre o sexo na atualidade, tendo os corpo de seus protagonistas como principal ferramenta para isso. Essa é a estreia da diretora nas telonas e já garantiu a ela o Urso de Ouro, principal prêmio do Festival de Berlim.

14) Morto Não Fala

Morto Não Fala | Dennison Ramalho | Brasil | 2018

Neste terror nacional, Daniel de Oliveira interpreta Stênio, um funcionário de um necrotério que tem o dom de falar com os mortos. Ao usar as informações que os corpos lhe revelam para uma vingança pessoal, ele libera uma maldição que passa a atormentar sua vida. A direção de Dennison Ramalho chamou a atenção no Fantasia Festival - referência internacional dos filmes de gênero - pela estética gore e pela abordagem que, ao mesmo tempo que reverencia os clássicos do terror, também é refrescante.

15) As Viúvas

Widows | Steve McQueen | EUA | 2018

Ganhador do Oscar de Melhor Direção por 12 Anos de Escravidão, o cineasta Steve McQueen retorna para as telonas com o drama de três viúvas que precisam se unir para quitar as dívidas deixadas pelas atividades criminosas de seus maridos. McQueen também assina o roteiro, co-escrito com Gillian Flynn, autora de Garota Exemplar (2014) e da minissérie Objetos Cortantes (2018). O filme foi escolhido para abrir esta edição do festival e conta com um elenco recheado de estrelas, como Viola Davis, Daniel Kaluuya e Liam Neeson.

Tem alguma indicação que também está na programação do Festival? Conta aí nos comentários!

Bohemian Rhapsody (2018) - Nem vida real, nem fantasia

Bohemian Rhapsody (2018) se propõe a ser uma celebração da trajetória da banda Queen e seu vocalista Freddie Mercury, que desafiou estereótipos e convenções para se tornar um dos artistas mais idolatrados da história da música, acompanhando o sucesso meteórico do grupo através de suas canções icônicas e seu som revolucionário. O projeto, no entanto, enfrentou diversos problemas durante sua produção, desde a desistência do primeiro ator cotado para o papel principal, Sacha Baron Cohen, até a demissão do diretor Bryan Singer, substituído por Dexter Fletcher

Contudo, há males que vem para o bem, como a escolha de Rami Malek, ator ganhador do Emmy em 2016 pelo papel principal na elogiada série Mr. Robot. Malek é o aspecto redentor do filme, com uma atuação detalhista que reproduz até mesmo os trejeitos e maneirismos mais discretos de Mercury, como o seu sotaque e sua forma de caminhar, e busca dar uma profundidade pouco permitida pelo roteiro genérico de Anthony McCarten, que após roteirizar A Teoria de Tudo (2014), parece escrever filmes biográficos no piloto automático. 

Causa estranheza que um filme que se propõe a retratar a vida de uma figura tão exuberante quanto a de Freddie Mercury, conhecido por seus excessos e por sua personalidade forte, seja tão insosso. A pressa em passar por tantos acontecimentos no decorrer da longa e desnecessária duração do filme não dá espaço para que ele se diferencie de tantas outras cinebiografias de músicos famosos. Apresentações e figurinos icônicos são recriados com uma fidelidade incrível, mas evidenciam o apego e contento em buscar essas referências sem trazer algo além, próprio da linguagem cinematográfica. O resultado é um filme que mais parece uma sucessão de clipes cover de alto orçamento, interessado em suscitar no público apenas emoções que ele já conhece.

A ambição de Bohemian Rhapsody em retratar a originalidade e a energia da banda é contra intuitiva e completamente prejudicada por sua falta de identidade enquanto obra. O projeto, notoriamente supervisionado pelos membros restantes do Queen, Brian May e Roger Meadows-Taylor, opta por uma versão um tanto asséptica dos fatos, em detrimento do aprofundamento em elementos que exigiriam uma abordagem nuançada e disposta a lidar com questões delicadas, como a sexualidade de Freddie Mercury e sua luta contra a AIDS. 

O desconforto em abordar tais pontos-chave da vida de Mercury é evidente na condução da trama, que de modo geral, deixa apenas implícito os excessos de Mercury em relação à drogas e a sua sexualidade, priorizando sua relação romântica com sua mulher Mary, que o acompanha durante boa parte da carreira e presencia sua gradual autodestruição. Segundo seu parceiro Jim Hutton, Mercury foi diagnosticado com o vírus da AIDS em 1987. No entanto, na abordagem revisionista do filme, a história é reescrita e coloca o diagnóstico da doença como sendo o motivador da antológica apresentação do Live Aid, em 1985, artificializando um "clímax cinematográfico". 

Quando surgem os créditos, vemos imagens de arquivo que deixam claro o tamanho da oportunidade perdida em não aproveitar um ator do calibre de Malek em um filme melhor, que recriasse a trajetória de vida do seu protagonista como ela realmente foi: infinitamente mais interessante. Felizmente, não é preciso assistir o filme para experienciarmos a imortal obra de Mercury - para isso, sempre teremos as músicas, e elas bastam.

O Primeiro Homem (2018) - Um Esforço Triunfal


Em O Primeiro Homem (2018), Damien Chazelle consolida sua maturidade e se confirma como um dos diretores mais promissores da atual geração ao por realizar uma obra com escolhas estético-narrativas bastante distantes de sua aparente zona de conforto. Na contramão do excelente Whiplash - Em Busca da Perfeição (2014) e La La Land: Cantando Estações (2016), Chazelle deixa de lado as intensas emoções e a fantasia ao optar por construir um drama sutil, baseado em fatos reais e centrado na jornada de Neil Armstrong (Ryan Gosling), o astronauta que se tornou o primeiro homem a pisar na Lua.

Apesar da aparente não-familiaridade de Chazelle com o material escolhido - baseado no livro homônimo escrito por James R. Hansen - é perceptível que um dos elementos mais importantes para o sucesso da obra foi o retorno de diversas parcerias do diretor, a começar por Ryan Gosling, de que quem Chazelle explora conscientemente o arquétipo de “homem circunspecto” que o tipificou e alçou ao sucesso com Drive (2011).

Um dos aspectos mais interessantes do filme é a forma como ele dimensiona visualmente os dramas pessoais de Armstrong frente a sua grandiosa missão de levar os Estados Unidos à vitória na Corrida Espacial contra a URSS em plena Guerra Fria. Linus Sandgren, em em seu segundo trabalho como diretor de fotografia de Chazelle, explora brilhantemente o senso de escala do espectador, frequentemente colocando elementos como o olho humano e a Lua como objetos de igual tamanho e importância imagética, aproximando e harmonizando duas vertentes narrativas supostamente irreconciliáveis.



A harmonização de seus elementos é uma característica notável ao longo do filme, no qual a montagem de Tom Cross, em sua terceira colaboração com Chazelle, cadencia com grande habilidade o roteiro de Josh Singer, vencedor do Oscar por Spotlight - Segredos Revelados (2015) ao alternar a rotina familiar de Armstrong e sua esposa Janet (Claire Foy) com o desenvolvimento da missão espacial e interligando seus percalços de maneira bastante orgânica, utilizando discretamente alguns clichês dramáticos para aproximar o espectador da trama e seu protagonista estoico.

Imersão, aliás, é a palavra de ordem do filme, que mesmo em meio à uma narrativa com ares grandiosos, nunca se perde do ponto de vista humano de Armstrong, convergindo todo seu esforço estético para representar a trama sensorialmente através do seu contato com o que orbita à sua volta, sejam pessoas ou grandes corpos celestes. O que afeta Armstrong afeta o espectador, desde a claustrofobia e a solidão das naves ou as forças naturais que as castigam, construídas de forma impecável pela direção de arte, a fotografia e especialmente, o som - este, inclusive, deve despontar como um favorito das categoria relativas nas vindouras premiações. 

O Primeiro Homem, assim como a história que narra, triunfa ao fazer escolhas corajosas, resultando em uma obra cinematográfica que renova a desgastada linguagem dos filmes biográficos ao recontar a árdua caminhada que levou Neil Armstrong a dar o pequeno passo que o eternizou na história e, agora, no cinema.

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