Brightburn: O Filho das Trevas (2019) - Potencial desperdiçado


Brightburn: Filho das Trevas (2019) foi vendido como uma inovadora mescla de dois gêneros bastante populares no cinema atual: “filmes de super herói” e terror. Produzido por James Gunn, é o segundo longa-metragem do pouco conhecido diretor David Yarovesky e tem um argumento promissor, ainda que derivado de um questionamento não tão original: “E se o Super-Homem usasse seus poderes para o mal?”.

A resposta vem na forma de Brandon Bryer (Jackson A. Dunn), um bebê alienígena que cai no terreno de um casal que não conseguia ter filhos. Por conta disso, o casal decide criá-lo, mas ao começar a descobrir seus poderes, ao invés de se tornar um herói, o garoto passa a aterrorizar a pequena cidade onde vive.

O argumento em si já sugere certos rumos para a narrativa, mas Brightburn infelizmente executa toda sua história da forma mais previsível possível, tanto na narrativa quanto na estética. Há uma incômoda sensação de familiaridade que transforma a sua modesta duração em um estranho déjà-vu.

Em meio a uma péssima montagem (especialmente no primeiro ato), momentos que parecem se repetir ao longo da trama e as pouco inspiradas referências à iconografia do Super-Homem, o filme deixa claro a pobreza do que tem a oferecer. Mesmo seus elementos diferenciais mais óbvios, como a possibilidade de explorar os super poderes do protagonista nos momentos de terror e tensão, falham em suscitar qualquer emoção no espectador que não seja um previsível "choque" com os momentos de violência gráfica, típicos do estilo gore.

O produto final é um tanto estranho, pois mesmo o envolvimento de alguém com a experiência de James Gunn, reconhecido por seu trabalho em ambos os gêneros explorados no filme, é incapaz de elevar o material e oferecer rumos mais interessantes à trama. Assim como seu protagonista, o filme desperdiça seu potencial ao ambicionar tão superficialmente, desperdiçando boas atuações - com destaque para Elizabeth Banks como Tori, a mãe de Brandon - e perdendo chances de aprofundar a carga dramática do filme e explorar seus potenciais temas, que parecem estar escondidos à plena vista.

Todo herói tem um ponto fraco, mas Brightburn tem vários. A isto, não há super poder que resista.

Magnólia – Revisitando o passado, encarando Medos e o Absurdo


O terceiro filme de Paul Thomas Anderson chega a seu vigésimo aniversário em 2019 ainda promovendo debates e conquistando novos e velhos cinéfilos.

Fazem vinte anos que uma safra incrível de filmes tomou as salas de cinema em todo o mundo. À beira da virada do milênio, alguns dos títulos mais significativos para a atual geração de cinéfilos vinha à tona com temáticas mais introspectivas e reflexivas – para o mundo e para a condição humana. Entre eles, temos Magnólia. Um dos filmes mais abundantes já realizados pela indústria de cinema norte-americana. E quando a palavra abundante é usada dessa maneira, é para representar toda a vida contida neste filme. A obra ainda proporciona uma enorme variedade de possíveis leituras e surpreende por sua ambição, por sua quantidade de camadas e por trazer impressões artísticas tão fortes de Paul Thomas Anderson, que mira na graça do acaso para sentenciar que a falta de sentido em nossa existência é o próprio sentido da existência em si.

Magnólia é um mosaico de histórias, formato comumente chamado de “painel”. Esse tipo de narrativa apresenta diversos personagens que podem se entrelaçar ou não - cada um deles se desenvolve paralelamente para de alguma forma se acolherem no final. No caso deste filme específico, os personagens têm marcas passadas e anseios comuns que giram em volta de suas relações humanas e a busca por algo que lhes traga conforto.


São oito histórias particulares, duas de personagens que confrontam a própria morte. Elas trazem chagas parecidas e buscam preencher suas vidas com algo mais, enquanto uma nona pessoa, Phil Parma, enfermeiro vivido por Philip Seymour Hoffman, se apresenta como contraste aos demais. Phil parece ter consciência de quem é e demonstra satisfação com seu lugar no mundo ao mesmo tempo em que uma correnteza de conflitos atinge a todos naquela chuvosa noite em Los Angeles. O filme também trata disso: de insegurança, incertezas e de como existem pessoas perdidas e insatisfeitas sob o disfarce da sociedade de aparências.

Nas palavras do próprio diretor em entrevista para o Charlie Rose Show, Magnólia é um filme sobre pais e filhos, sobre quem somos, como crescemos e somos afetados por nossas experiências em torno de tudo isso. Não atoa, PTA pega emprestada uma referência d’O Mercador de Veneza, peça de Shakespeare, que por sua vez é tomada da Bíblia: uma menção de que os filhos estão condenados a pagar pelos pecados dos pais. Assim, o diretor faz questão de apresentar todas as relações entre pais e filhos, sejam elas diretas ou indiretas, da maneiras mais asfixiante o possível, abusa de uma trilha sonora angustiante e uma câmera imparável para que isso seja feito.


Na sequência de abertura que já se tornou bastante conhecida, Ricky Jay, como narrador, apresenta três histórias sobre a influência do acaso na realidade: a primeira é um relato do New York Herald; Na segunda, temos uma nota do jornal Reno Gazette, de Nevada; Enquanto a terceira e mais conhecida é um caso contado numa academia forense para estudantes de direito. Essa sequência é determinante para a cadeia narrativa estabelecida pelo diretor, ela define as regras que o filme seguirá dali em diante e também determinará o destino a ser confrontado por cada um dos personagens.

As três histórias apresentadas na abertura estruturam o encontro da arte com a vida real no famoso evento inesperado do filme. É quando o acaso prova seu ponto na história: não existe controle sobre a continuidade das coisas e tudo que acontece sobre a Terra está submisso ao acaso. Esse evento e as catarses provocadas por ele diferenciam Magnólia da maioria absoluta dos filmes de grande circuito e altos cartazes. É nesse flerte com o absurdo que Paul Thomas Anderson rompe com as doces fórmulas as quais o público está acostumado e faz questão, e ainda nesse ato demonstra que como a vida do outro lado da tela, seu filme está exposto à forças maiores. Muitas vezes a vida conduz as pessoas pelo acaso, forçando-as a encarar situações que não estavam dispostas a enxergar. São situações absurdas em todas as escalas, que como dito no próprio filme, são sempre seguidas de algo como “coisas assim acontecem o tempo todo”. Pode ser que seja verdade, que coisas assim aconteçam mesmo o tempo todo, mas Magnólia valoriza a graça de cada um desses momentos. Na reinvenção pessoal que cada um deles proporciona e como cada um destes sopros de vida é uma oportunidade para romper com laços e dores, buscar uma vida condizente com quem se é e quem se deseja ser.


Completando vinte anos, é fácil cravar Magnólia como uma obra-prima. Há respaldo público e crítico para isso. Explanar o porquê de tanta aclamação é que é uma tarefa mais complexa. Por mais que o mundo tenha dado muitas voltas desde o lançamento do filme até os dias que passamos, ainda vivemos tempos onde as pessoas se encontram fragilizadas e mal resolvidas com suas próprias questões. Numa só obra, o autor condensa traição, arrependimento e, sobretudo, perdão e a dificuldade de se perdoar a alguém e até a si próprio. Faz isso de maneira frenética e quase que documental para que o espectador também experimente o filme da mesma maneira que os personagens - à flor da pele - para assim também sair transformado após os créditos rolarem.

Tati Leite: “Quando 90% da equipe são homens, você tem de estar consciente do seu papel”

Profissional de efeitos especiais, a paulista Tatiane Leite trabalha há 6 anos em Los Angeles, é ativa no mercado de trabalho e já participou da equipe técnica de grandes produções, como “Missão Impossível: Efeito Fallout” e filmes do "Universo Cinematográfico da Marvel". Nós da 365 conversamos com ela sobre sua trajetória, mercado de trabalho e adversidades do ofício. Tati dá dicas para quem está começando, comenta sobre a indústria brasileira e revela ser positiva sobre o futuro da área, mas destaca a persistente desigualdade e conta que já chegou a trabalhar em grandes projetos onde era a única mulher do grupo técnico.

Tatiane sempre foi amante de efeitos gráficos. Se formou em Engenharia da Computação pela Unicamp e, concomitante ao curso, fez iniciação científica onde o objetivo era criar uma animação 3D para dispositivos móveis. Mostrando-se fiel ao campo, seu mestrado foi desenvolver atratividade de rostos em imagem. Tati criou um sistema para deixar os rostos mais atraentes, e foi durante essa época que ela participou do SIGGRAPH, em Los Angeles, uma das maiores conferências de computação gráfica do mundo. Foi a partir daí que Tati viu ser possível unir dois mundos que tanto amava: cinema e tecnologia.

Logo quando terminou o mestrado, a artista se mudou para os Estados Unidos e foi estudar na UCLA (Universidade da Califórnia) a parte de entretenimento que faltava para que ela conseguisse ingressar na área. A experiência também a ajudou entender o mercado e funcionamento da indústria no exterior e, principalmente, quais os papéis de cada profissional e como se encaixar nesse novo cenário muito distante da realidade brasileira. Seu trabalho mais recente chega aos cinemas ainda esse ano - o tão aguardado live action O Rei Leão.

Pergunta: Como propriamente funciona seu trabalho? Acredito que os efeitos nos filmes chamam a atenção de muita gente, mas poucos sabem como é o processo para chegar naquele resultado.

Resposta: Meu trabalho varia de projeto para projeto. Pode ser 3D, composição digital, embelezamento, envelhecimento ou rejuvenescimento. Têm projetos que o efeito final da cena só acontece quando finalizo o trabalho, e têm projetos que meu trabalho vai para as mãos de outros artistas. Por exemplo, numa cena 3D temos um artista que modela os objetos/personagens, depois esse trabalho vai para outro artista que coloca os esqueletos, e então segue para outro que vai animar esses modelos ou esqueletos, um outro que irá iluminar a cena, renderizar... são muitas camadas de processo.

Pergunta: Como ingressou no mercado de trabalho? Qual foi seu primeiro grande projeto?

Resposta: No começo eu fazia muito freelance para cineastas independentes, então por serem filmes independentes eu trabalhava direto no projeto, conversava com o diretor e via qual que era a ideia para cada cena, cada shot (plano), e com isso fui construindo portfólio e apliquei para entrar nos estúdios - comecei no Lola VFX. Meu primeiro filme foi da Marvel, O Homem Formiga e a Vespa, que saiu ano passado, e para mim foi bem especial porque eu já era uma grande fã. Agora lançou outro que trabalhei [Capitã Marvel], esse projeto é bem legal por se tratar de uma super-heroína, e nós fizemos um trabalho incrível com o Samuel L. Jackson, ele está com 70 anos atualmente, e acredito que conseguimos deixá-lo 30 anos mais novo. A parte mais legal desse trabalho de Efeitos (rejuvenescer/envelhecer), é permitir aos atores serem quem eles quiserem ser, sem comprometer em nada suas performances/atuações. O trabalho [da pós produção] é tão meticuloso que passa realidade para quem assiste, sem ferir a performance. É realmente mágico como tudo isso é possível, por isso é muito gratificante quando conseguimos realizar nosso trabalho com maestria.


Pergunta: Como é trabalhar em um meio majoritariamente masculino? Isso já interferiu no seu ofício?

Resposta: Eu vim de Engenharia, então achei que já estava preparada para o que viesse, só que me surpreendi um pouco, porque a área de efeitos especiais é bem fechada. Eu ouso dizer que é quase mais do que em engenharia. Cheguei a trabalhar em projetos que, por exemplo, eu era a única mulher do grupo que trabalhou no filme, a única técnica - não a única na área geral, porque hoje existem muitas mulheres ganhando nessa área de produção, assistente de direção, supervisoras de roteiro, mas alguém trabalhando na parte técnica mesmo, muitas vezes você pode ser a única. Ainda é bem restrito, eu acho que isso se deve sim a diversos fatores que o pessoal discute, mas é um pouco triste de ver, porque é uma área que a gente tem que ir ganhando espaço ainda, sabe? Então tudo é uma batalha, você tem de provar valor, você cresce de maneira diferente. É um desafio sempre. Pode ser intimidador se você vislumbra sua carreira e pensa “bom, quem que eu vou pegar de modelo aqui? ”, e aí você descobre que não tem, não tem uma modelo. Para você ter uma ideia, existem cada vez mais mulheres abrindo espaço, mas no Oscar apenas uma ganhou em Efeitos Especiais, e se eu se eu não me engano, só 3 ou 4 nomeações em todos esses anos de premiação. Se você pegar a lista de homem ali é gigantesca. Pode ser intimidador, mas não podemos nos apegar a coisas do passado e como foram, precisamos continuar crescendo e continuar abrindo portas, e acredito que acima de tudo, temos que estar conscientes. Então, se você entra numa equipe, abre a sala e 90% do que a compõe são homens, você tem de estar consciente do seu papel, consciente de que você está abrindo fronteiras, e quando abrimos fronteiras os caminhos são diferentes: você precisa pensar diferente, tem que mostrar e provar seu talento de formas diferentes, e isso vai dando abertura não só para você mas para outras mulheres também, que estão vindo ao lado e que estão vindo atrás, as das novas gerações. Acho que o importante é ter consciência, saber que não está de igual para igual ainda, mas que é possível, e temos que trabalhar para alcançar isso. Eu mesma, por exemplo, os melhores times que já trabalhei foram os que tinham maior diversidade, não só que tivesse um equilíbrio entre homem e mulher, mas que também tivesse uma boa mistura, culturalmente falando. Quando se consegue colocar um monte de gente diferente junta, os resultados que isso proporciona são incríveis.

Pergunta: O que você conhece da realidade do mercado brasileiro atual?

Resposta: Não estou inserida e nem trabalhando no mercado brasileiro, mas eu venho acompanhando, e o que eu posso dizer é que cada vez mais está tendo reconhecimento, e isso é muito importante. Estamos ganhando uma popularidade de fora também. Temos várias vertentes em que isso está acontecendo, claramente pra mim uma delas é a área que eu tenho interesse, que minha mão de obra está mais inserida, que é no mercado de animação. Tivemos aí a Rosana Urbes sendo premiada com a sua animação "Guida" no Annecy, que é o maior festival de animação do mundo. O Alê Abreu com "O Menino e o Mundo" também, foi indicado ao Oscar. Outra área que está crescendo é a de videoclipe, isso é bem legal, eles estão usando técnicas diferentes [no Brasil], tem uns que têm histórias... está se tornando uma área cada vez mais elaborada, com uma cinematografia melhor, com efeitos. E a parte de filmes também, é sempre uma batalha, mas cada vez mais o Brasil está tendo seu valor reconhecido fora e acho que isso alimenta a indústria interna pela popularidade. Claro, não tanto quanto a gente gostaria, não caminha numa velocidade rápida, mas sim, é um mercado crescente e promissor. É assim que eu vejo, a gente tem muito campo para crescer, muito para melhorar, mas o fato de já ganhar um reconhecimento é um passo enorme.

Outra notória produção da qual Tati participou é o "Christopher Robin - Um Reencontro Inesquecível", de 2018
Pergunta: Tati, qual dica você pode dar para quem está começando e pretende se consolidar na área de pós-produção?

Resposta: Para você se consolidar de fato na área de pós produção tem uma coisa que é fundamental: você tem de gostar de aprender o tempo inteiro; não um pouco, não é estudar e só ai começar a fazer, porque tudo se renova e essa é uma área que muda muito rápido. A tecnologia evolui e é preciso ser versátil, então as vezes você sabe fazer aquele efeito usando aquele determinado programa, aquele software específico, e aí você muda para outro estúdio e não é mais aquele software, eles não têm aquela licença ou simplesmente não gostam daquela estrutura de trabalho e você tem de fazer a mesma coisa usando outro programa. Tem de se permitir aprender, precisa saber fazer coisas de diferentes maneiras, é preciso ter esse jogo de cintura para estar sempre se renovando para permanecer no mercado. A cada dia surgem novas ferramentas, programas e maneiras de desenvolver a mesma coisa. É necessário se manter atualizado, senão você tá fora. Por isso acho que esse é o ponto mais importante, se você está nessa área e se essa é a área que você quer, você tem de estar sempre se renovando, estudando e aperfeiçoando alguma coisa, a demanda não para.

Shazam! (2019) - O olhar infantil como super-poder


Com exceção da universalmente aclamada trilogia do Cavaleiro das Trevas, dirigida por Christopher Nolan, as adaptações cinematográficas dos heróis da DC Comics sofrem, em maior ou menor grau, de uma certa dificuldade em acertar o tom das narrativas e personagens que busca adaptar. Nesse sentido, a missão de Shazam! (2019) era familiar. Porém, se contava com uma certa boa-fé do público, oriunda dos recentes sucessos de Mulher Maravilha (2017) e Aquaman (2018), tinha contra si a pouca fama e a mitologia inusitada do seu novo protagonista. Coube ao pouco expressivo David F. Sandberg, diretor até então restrito a filmes de terror, a tarefa de trazer o herói às telas. Poucas vezes o prognóstico desanimador de um filme se provou tão distante do seu resultado de fato. Shazam! é ótimo.

Ao reconhecer a mitologia um tanto boba do seu personagem-título, Sandberg constrói uma narrativa alicerçada nas perspectivas atípicas do órfão malandro Billy Batson (Asher Angel), e seu irmão adotivo Freddy (Jack Dylan Grazer), ambos garotos de de 14 anos. A idade do seus protagonistas faz com que o filme se dirija especialmente a um público mais infantil, suavizando complexidades narrativas e apostando em uma mensagem positiva bastante clara.

Após receber poderes de um mago moribundo (Djimon Hounsou), Billy pode se transformar em um super-herói com corpo de adulto apenas dizendo uma palavra mágica: Shazam! Seu poderoso alter-ego é interpretado por Zachary Levi, que empresta todo seu carisma à figura deste ridículo (no melhor sentido) super-homem, cujo maior desafio é, justamente, ser uma criança. Utilizando poderes e atitudes heróicas como uma metáfora para o amadurecimento, o roteiro de Henry Gayden e Darren Lemke não esconde seu referencial inspirador nos saudosos filmes coming of age oitentistas - especialmente Quero ser Grande (1988) - nas peripécias do herói e seu fiel companheiro, que fazem o que qualquer criança faria com superpoderes: divertir-se com eles, usando-os para se exibir na internet, fugir da escola e até ganhar uns trocados.

O chamado à maturidade, no entanto, vem com a chegada do maligno Dr. Thaddeus Sivana (Mark Strong), que controla representações monstruosas dos Sete Pecados Capitais. O inevitáveis confrontos são envoltos em uma bem-vinda ingenuidade que nunca perde de vista a intenção de tornar acessível aquilo que se vê - até mesmo no sentido literal, com a fotografia limpa e sem floreios de Maxime Alexandre. Não há grandes explicações para a mitologia do herói, porém a simplicidade do filme não deve ser confundida com falta de conteúdo. Há, no centro de tudo, uma bem conduzida e singela jornada de autodescoberta e entendimento de mundo.

Shazam! confirma os acertos do novo rumo da DC - o investimento em personagens, ideias e linguagens mais plurais, com a pressa em aplicar a hiper utilizada fórmula do “universo compartilhado” dando lugar à preocupação em contar boas histórias, sejam elas quais e como forem.

Nós (2019) - O horror de olhar para si

Em Corra! (2017), seu primeiro filme como diretor, Jordan Peele sinalizou interesse em um cinema fortemente imbuído de comentário social, mas também nitidamente enraizado em referências de um cinema de gênero e voltado para o entretenimento. A combinação foi um sucesso de público e crítica, e a expectativa para o próximo filme de Peele era grande. Em seu aguardado retorno em Nós (2019), o diretor se mantém fiel aos elementos basilares do seu cinema e se mostra ainda mais confortável com a tarefa de equilibrar e conciliar tais viéses dentro da narrativa que propõe.

Após sofrer um trauma na infância, Adelaide (Lupita Nyong'o) retorna ao local do ocorrido com o marido Gabe (Winston Duke) e os filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) para passar um fim de semana na praia. Contudo, a chegada de um grupo misterioso muda tudo e a família se torna refém de seus próprios duplos.

O fascínio filosófico gerado pela figura do duplo é inegável e surge de forma bastante recorrente ao longo da história das artes, como em O Médico e o Monstro, clássico da literatura gótica escrito por Robert Louis Stevenson. Aqui, a escolha de revisitar o conceito serve à um exercício de reflexão e autocrítica que surge a partir de uma incômoda questão: O que encontramos quando realmente olhamos para nós mesmos? 

A preferência pela reflexão mais ampla no lugar da crítica pontual torna o comentário social de Nós muito menos explícito que o de Corra!, criando para si um subtexto mais rico e menos taxativo. Nesse sentido, Peele demonstra ainda mais sua maturidade estética ao dar ao filme uma dimensão irônica que o desloca das expectativas do gênero de terror e o aproxima da linguagem autoral que está criando para si, disposto a trabalhar com a mescla de ingredientes aparentemente opostos tanto como as inúmeras reviravoltas no roteiro, que não se acanha de ser tão engraçado quanto é violento. Ainda que nem sempre transite entre tais extremos da melhor forma, o comprometimento com tal recurso já é mais do que suficiente para garantir um certo frescor na sua linguagem e sua narrativa.

De certa forma, Nós parece ser especialmente endereçado à parcela do público que encarou o sucesso de Corra! como um indicativo de uma melhora em nossa consciência coletiva. Embora confie no poder do cinema como ferramenta de contemplação, Peele sabe que os problemas que aborda são mais profundos e complexos, mas encontrou em sua afinidade com os "filmes de gênero" uma possibilidade de entregar, mesmo à parcela mais desatenta do público, uma catarse social disfarçada.

Embalado por uma potente trilha sonora e amparado por excelentes atuações - com destaque para Lupita Nyong'o -, Nós é a confirmação de que Jordan Peele é uma das vozes mais originais a surgir do cinema americano nesta década. Rotulado como o "próximo Spielberg", o diretor demonstra que, apesar da sua inegável bagagem cinematográfica e seu visível conforto em meio às referências estéticas e narrativas que utiliza, está mais interessado em ser o primeiro Jordan Peele. Quem ganha é o público.

Roma – as memórias de Cuarón expõem um tecido social delicado e opressor

A arte pode servir à diversas finalidades, consideramos seu contexto para entender qual lugar de uma obra no mundo, para a arte, para a sociedade e para a história. Com a proximidade da principal premiação da temporada, a poeira da polêmica parece finalmente ter baixado sobre Roma, que (assim como Infiltrado na Klan) faz opção pelo confronto, ainda de maneira subjetiva, para desmascarar o falso moralismo que acerca nossos costumes.

O filme começa com uma câmera estática apontando para o assoalho de uma garagem enquanto é lavada. A medida que água e sabão escorrem pelo piso, são notados reflexos de aviões que voam pelo céu da Cidade do México. Lentamente, essa câmera se move para revelar Cleo, uma moça de raízes indígenas que trabalha como criada na residência de uma família classe média-alta, residindo num pequeno cômodo aos fundos da casa. A partir dali, se desenrola a sua história, que é a mesma de milhares de mulheres do terceiro mundo como numa espécie de manifesto pela igualdade, justiça e fim da exploração no trabalho.

Cleo trabalha diariamente servindo seus patrões. Acordando cedo, preparando as quatro crianças da casa para a escola e fazendo as obrigações de limpeza e cozinha da família. Todos os dias, só se retira para descansar quando as luzes da casa de seus ‘senhores’ estão apagadas. Entre sorrisos, abraços e beijos daqueles com quem ela partilha seu tempo e se dedica a cuidar, também é repreendida com exaltação e rancor por Dona Sofia, chefe da família que acabara de ser deixada pelo marido que foi viver com a amante.

Concebido à partir das memórias de Alfonso Cuarón em sua infância, o título do filme é uma referência à Colônia Roma, distrito localizado em Cuauhtémomoc (que, por sua vez, é uma das demarcações territoriais da Cidade do México). O diretor dedicou inclusive, assim como fez nos créditos, o Leão de Ouro que recebeu no Festival de Veneza à Libo (Liboria Rodriguez), a real inspiração para Cleo, que cuidou do diretor em sua infância. O filme se passa na aurora dos anos 70, entre cartazes da Copa do Mundo espalhados, há também uma tensão permanente nas ruas da cidade que culminaria no Massacre de Corpus Christi.

Há muito coração em cada tomada do filme, muito disso é transmitido em função da fotografia preto e branco que, além de ambientar a época, acentua a concretude de sua história. As escolhas estéticas do diretor forçam, primeiramente, a imersão no universo daquela família. Não demora muito até que o espectador comece a se familiarizar com todos os cômodos da casa e com cada indivíduo que vive ali. Então, o longa faz crescer o desconforto no espectador ao expor Cleo a takes longos e lentos, sempre afastada da câmera que está em constante movimento para acompanhar seu permanente serviço.

Em sua primeira hora, Roma investe em desenvolver o universo em que se passa o filme para depois descarregar uma verdadeira tormenta de angústia. A partir do momento em que Cleo é abandonada por seu namorado no cinema e recebe a confirmação de que está grávida, ela se sente cada vez mais sufocada, sem deixar a subserviência. O mundo a sua volta a acompanha, as agonias de todos correm simultaneamente. Em uma obra como Roma, não se deve reduzir o filme a continuidade linear das situações, quando cada olhar, cada ordem da casa para Cleo que o autor coloca em cena e especialmente em cada vez que Cuarón funde a inocência dela com a das crianças - Toño, Paco, Sofi e Pepe – tem muita importância para assimilar toda a vida em ocorrência. Num momento especial, a empregada canta “Eu gostaria de ter tudo para colocar aos seus pés, mas nasci pobre e você nunca vai me amar” enquanto trabalha, antes de se fingir de morta e “gostar” ao brincar com Pepe.

Mesmo que apresentado e comentado por parte da crítica como um filme mais técnico que qualquer outra coisa, Roma é um retrato da vida abaixo dos trópicos que se abre para uma discussão sempre conveniente – acerca de nosso respeito para o próximo e de como esse comportamento vulgar pode se fazer raiz de nossos principais males enquanto sociedade. Mesmo que se tratando das memórias de seu autor, a família de Roma, nos anos 70 (período marcado pela repressão em todo o continente), é um perfeito microcosmo de como a ibero-américa ainda lida com a desigualdade e as relações humanas. Ao que parece, há muito o que ser discutido, sobre Roma e sobre nossas vidas.

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