Homem-Aranha: Longe de Casa (2019) - Nem tão longe, nem tão perto

Como já havia feito anteriormente, lançando filmes “menores” após o clímax das suas “fases” anteriores, a Marvel aposta em Homem-Aranha: Longe de Casa para lidar com os desdobramentos dos acontecimentos grandiosos de Vingadores: Ultimato, e Peter Parker (Tom Holland) é o personagem perfeito para isso.

Seu olhar adolescente e sua relação íntima com o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) oportuniza um recorte mais particular e sentimental na examinação das consequências dos eventos do filme anterior. Para Peter, a perda da figura paterna de Tony Stark e o vácuo deixado por ele se apresenta como uma oportunidade de ser uma espécie de sucessor - uma boa metáfora para o amadurecimento necessário na passagem para a vida adulta.

Contudo, após os eventos traumáticos que viveu, Peter está muito mais interessado em viajar pela Europa com seus amigos de colégio e tentar conquistar MJ (Zendaya). Tudo muda quando ele é surpreendido por uma visita de Nick Fury (Samuel L. Jackson), que o convoca para uma missão onde ele se unirá ao enigmático Mysterio (Jake Gyllenhaal) para enfrentar os Elementais, monstros que podem destruir a Terra.

A decisão da Marvel de introduzir Peter Parker em seu universo cinematográfico a partir de uma ligação com o Homem de Ferro, o herói mais popular da franquia até aquele momento, foi uma aposta de marketing segura e até mesmo inspirada, mas se tornou um alvo de críticas por parte dos fãs por se afastar de alguns elementos basilares do personagem, e o próprio diretor Jon Watts foi comparado desfavoravelmente em relação à Sam Raimi e Marc Webb.

O que diferencia a visão de Watts em relação a seus antecessores é a mescla de gêneros cinematográficos, que rendeu a Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2016) um necessário frescor narrativo ao combinar o gênero de filmes de super-heróis com os filmes escolares “coming of age”. Em Longe de Casa, Watts segue a “regra de ouro” das sequências ao aumentar o escopo da trama e repetir os acertos, mas tenta morder mais do que pode mastigar, ao incluir ainda mais gêneros na mistura - filme de espionagem, comédia romântica e road movie.

O resultado é um filme que tem uma montagem atrapalhada e um ritmo ruim em sua primeira metade, pontuada também por personagens descartáveis, um humor excessivo e pouco eficiente, além de uma trama que recicla vários elementos do filme anterior. Apesar de suas ambientações diferenciadas, o filme pouco as explora, relegando os países estrangeiros que visita a meros panos de fundo para as cenas de ação, sendo duas delas bastante repetitivas. O que segura esta primeira porção do filme é a relação de Peter com MJ, personagem que ganha mais espaço nesta sequência e funciona bem.

Já em sua segunda porção, após uma grande revelação sobre o personagem Mysterio - interpretado por um Jake Gyllenhaal entregue e carismático - o filme ganha ritmo e entrega sequências de ação que estão entre as melhores da franquia e bons momentos de interação entre os personagens.

Ao final de um filme irregular que nunca atinge os pontos altos de outros da franquia, como Homem-Aranha 2 (2004) e Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), a jornada de amadurecimento e formação do personagem aparentemente se conclui. Não mais à sombra de seu mentor, o herói pode ser, de fato, ele mesmo e, a depender da bombástica cena pós-créditos do filme, o futuro de suas histórias é promissor, mas não pode relutar, assim como Peter Parker, em ser o mesmo de antes.

X-Men: Fênix Negra (2019)


Nos quadrinhos, os X-Men já foram o grupo de super-heróis mais famoso e popular da Marvel. Escolhê-los como a primeira equipe de super-heróis a ser adaptada para o cinema seria, portanto, natural. A estreia dos X-Men nas telas aconteceu no primeiro ano da década de 2000, na qual o cinema e o universo dos super-heróis ainda não haviam descoberto seu potencial conjunto. De lá para cá, como dizem, o resto é história.

Para a franquia X-Men, isso significa dezenove anos e doze filmes, dentre eles, duas trilogias e cinco filmes derivados com seus personagens mais populares. Uma trajetória marcada pela inconsistência, tendo entregado ao público filmes que se tornaram referência no gênero, como X2 (2003), Deadpool (2016) e Logan (2017), mas também cometido equívocos como X-Men Origens: Wolverine (2009) e X-Men: Apocalypse (2016). Isso nos leva, finalmente, à X-Men: Fênix Negra (2019), filme que se tornou o encerramento da franquia após a notória aquisição da FOX pela Disney.

A conclusão da franquia optou por revisitar o passado e, essencialmente, "readaptar" Fênix Negra, uma das histórias mais famosas dos universo dos quadrinhos. Uma primeira tentativa, execrada pelos fãs e a crítica, foi feita em X-Men: O Confronto Final (2006), onde a emblemática história foi essencialmente relegada à uma subtrama do filme. Desta vez, coube a Simon Kinberg, produtor de sete dos doze filmes da franquia, ascender à cadeira de diretor para comandar a nova versão.

Kinberg, apesar de pouco experiente como diretor, mostra interesse em seus personagens ao dedicar boa parte do filme à exploração de seus conflitos, mas se perde com a pressa em resolvê-los, conduzindo os personagens por grandes mudanças de perspectiva em questão de segundos, entre poucos cortes. É uma escolha claramente guiada pela necessidade de "equilibrar" os dramas humanos com as esperadas e grandiosas sequências de ação, mas que surge em detrimento de ambos os elementos.

O filme é centrado em Jean Grey (Sophie Turner), personagem cuja nova versão foi apresentada em um papel menor em X-Men: Apocalypse (enquanto a versão original de Famke Jansenn foi uma das protagonistas da primeira trilogia). Apesar da interpretação de Sophie Turner ter melhorado consideravelmente em relação à sua estreia na franquia, a curta duração do filme se mostra insuficiente para desenvolver de forma satisfatória a jornada da personagem e criar uma relação de empatia com o público. Outro equívoco familiar à franquia é a insistência em focar nos mesmos personagens coadjuvantes, como o Professor Xavier e Magneto. Seus intérpretes, James McAvoy e Michael Fassbender  fazem o possível para elevar o material que recebem, mas conseguem apenas se destacar em meio a um elenco de personagens desperdiçados cujos atores parecem oscilar entre a desorientação e o tédio, em especial a a vilã periférica de Jessica Chastain (em uma interpretação inexplicavelmente insossa).

Nem mesmo suas qualidades, como a trilha do sempre confiável Hans Zimmer, são suficientes para redimir o filme, que apesar de bem intencionado, é vítima de suas pretensões e falha em justificar a revisitação da história, resultando em um filme apenas um pouco superior à sua primeira versão e uma conclusão surpreendentemente anticlimática para a franquia. Contudo, com o encerramento desta franquia pioneira e a certeza da sua eventual e promissora retomada dentro do universo cinematográfico da Marvel, me permito uma digressão para citar uma apropriada e célebre frase de Winston Churchill: “Isto não é o fim. Não é sequer o princípio do fim. Mas é, talvez, o fim do princípio.”. Adeus, X-Men. Vida longa aos X-Men!



Brightburn: O Filho das Trevas (2019) - Potencial desperdiçado


Brightburn: Filho das Trevas (2019) foi vendido como uma inovadora mescla de dois gêneros bastante populares no cinema atual: “filmes de super herói” e terror. Produzido por James Gunn, é o segundo longa-metragem do pouco conhecido diretor David Yarovesky e tem um argumento promissor, ainda que derivado de um questionamento não tão original: “E se o Super-Homem usasse seus poderes para o mal?”.

A resposta vem na forma de Brandon Bryer (Jackson A. Dunn), um bebê alienígena que cai no terreno de um casal que não conseguia ter filhos. Por conta disso, o casal decide criá-lo, mas ao começar a descobrir seus poderes, ao invés de se tornar um herói, o garoto passa a aterrorizar a pequena cidade onde vive.

O argumento em si já sugere certos rumos para a narrativa, mas Brightburn infelizmente executa toda sua história da forma mais previsível possível, tanto na narrativa quanto na estética. Há uma incômoda sensação de familiaridade que transforma a sua modesta duração em um estranho déjà-vu.

Em meio a uma péssima montagem (especialmente no primeiro ato), momentos que parecem se repetir ao longo da trama e as pouco inspiradas referências à iconografia do Super-Homem, o filme deixa claro a pobreza do que tem a oferecer. Mesmo seus elementos diferenciais mais óbvios, como a possibilidade de explorar os super poderes do protagonista nos momentos de terror e tensão, falham em suscitar qualquer emoção no espectador que não seja um previsível "choque" com os momentos de violência gráfica, típicos do estilo gore.

O produto final é um tanto estranho, pois mesmo o envolvimento de alguém com a experiência de James Gunn, reconhecido por seu trabalho em ambos os gêneros explorados no filme, é incapaz de elevar o material e oferecer rumos mais interessantes à trama. Assim como seu protagonista, o filme desperdiça seu potencial ao ambicionar tão superficialmente, desperdiçando boas atuações - com destaque para Elizabeth Banks como Tori, a mãe de Brandon - e perdendo chances de aprofundar a carga dramática do filme e explorar seus potenciais temas, que parecem estar escondidos à plena vista.

Todo herói tem um ponto fraco, mas Brightburn tem vários. A isto, não há super poder que resista.

Magnólia – Revisitando o passado, encarando Medos e o Absurdo


O terceiro filme de Paul Thomas Anderson chega a seu vigésimo aniversário em 2019 ainda promovendo debates e conquistando novos e velhos cinéfilos.

Fazem vinte anos que uma safra incrível de filmes tomou as salas de cinema em todo o mundo. À beira da virada do milênio, alguns dos títulos mais significativos para a atual geração de cinéfilos vinha à tona com temáticas mais introspectivas e reflexivas – para o mundo e para a condição humana. Entre eles, temos Magnólia. Um dos filmes mais abundantes já realizados pela indústria de cinema norte-americana. E quando a palavra abundante é usada dessa maneira, é para representar toda a vida contida neste filme. A obra ainda proporciona uma enorme variedade de possíveis leituras e surpreende por sua ambição, por sua quantidade de camadas e por trazer impressões artísticas tão fortes de Paul Thomas Anderson, que mira na graça do acaso para sentenciar que a falta de sentido em nossa existência é o próprio sentido da existência em si.

Magnólia é um mosaico de histórias, formato comumente chamado de “painel”. Esse tipo de narrativa apresenta diversos personagens que podem se entrelaçar ou não - cada um deles se desenvolve paralelamente para de alguma forma se acolherem no final. No caso deste filme específico, os personagens têm marcas passadas e anseios comuns que giram em volta de suas relações humanas e a busca por algo que lhes traga conforto.


São oito histórias particulares, duas de personagens que confrontam a própria morte. Elas trazem chagas parecidas e buscam preencher suas vidas com algo mais, enquanto uma nona pessoa, Phil Parma, enfermeiro vivido por Philip Seymour Hoffman, se apresenta como contraste aos demais. Phil parece ter consciência de quem é e demonstra satisfação com seu lugar no mundo ao mesmo tempo em que uma correnteza de conflitos atinge a todos naquela chuvosa noite em Los Angeles. O filme também trata disso: de insegurança, incertezas e de como existem pessoas perdidas e insatisfeitas sob o disfarce da sociedade de aparências.

Nas palavras do próprio diretor em entrevista para o Charlie Rose Show, Magnólia é um filme sobre pais e filhos, sobre quem somos, como crescemos e somos afetados por nossas experiências em torno de tudo isso. Não atoa, PTA pega emprestada uma referência d’O Mercador de Veneza, peça de Shakespeare, que por sua vez é tomada da Bíblia: uma menção de que os filhos estão condenados a pagar pelos pecados dos pais. Assim, o diretor faz questão de apresentar todas as relações entre pais e filhos, sejam elas diretas ou indiretas, da maneiras mais asfixiante o possível, abusa de uma trilha sonora angustiante e uma câmera imparável para que isso seja feito.


Na sequência de abertura que já se tornou bastante conhecida, Ricky Jay, como narrador, apresenta três histórias sobre a influência do acaso na realidade: a primeira é um relato do New York Herald; Na segunda, temos uma nota do jornal Reno Gazette, de Nevada; Enquanto a terceira e mais conhecida é um caso contado numa academia forense para estudantes de direito. Essa sequência é determinante para a cadeia narrativa estabelecida pelo diretor, ela define as regras que o filme seguirá dali em diante e também determinará o destino a ser confrontado por cada um dos personagens.

As três histórias apresentadas na abertura estruturam o encontro da arte com a vida real no famoso evento inesperado do filme. É quando o acaso prova seu ponto na história: não existe controle sobre a continuidade das coisas e tudo que acontece sobre a Terra está submisso ao acaso. Esse evento e as catarses provocadas por ele diferenciam Magnólia da maioria absoluta dos filmes de grande circuito e altos cartazes. É nesse flerte com o absurdo que Paul Thomas Anderson rompe com as doces fórmulas as quais o público está acostumado e faz questão, e ainda nesse ato demonstra que como a vida do outro lado da tela, seu filme está exposto à forças maiores. Muitas vezes a vida conduz as pessoas pelo acaso, forçando-as a encarar situações que não estavam dispostas a enxergar. São situações absurdas em todas as escalas, que como dito no próprio filme, são sempre seguidas de algo como “coisas assim acontecem o tempo todo”. Pode ser que seja verdade, que coisas assim aconteçam mesmo o tempo todo, mas Magnólia valoriza a graça de cada um desses momentos. Na reinvenção pessoal que cada um deles proporciona e como cada um destes sopros de vida é uma oportunidade para romper com laços e dores, buscar uma vida condizente com quem se é e quem se deseja ser.


Completando vinte anos, é fácil cravar Magnólia como uma obra-prima. Há respaldo público e crítico para isso. Explanar o porquê de tanta aclamação é que é uma tarefa mais complexa. Por mais que o mundo tenha dado muitas voltas desde o lançamento do filme até os dias que passamos, ainda vivemos tempos onde as pessoas se encontram fragilizadas e mal resolvidas com suas próprias questões. Numa só obra, o autor condensa traição, arrependimento e, sobretudo, perdão e a dificuldade de se perdoar a alguém e até a si próprio. Faz isso de maneira frenética e quase que documental para que o espectador também experimente o filme da mesma maneira que os personagens - à flor da pele - para assim também sair transformado após os créditos rolarem.

Tati Leite: “Quando 90% da equipe são homens, você tem de estar consciente do seu papel”

Profissional de efeitos especiais, a paulista Tatiane Leite trabalha há 6 anos em Los Angeles, é ativa no mercado de trabalho e já participou da equipe técnica de grandes produções, como “Missão Impossível: Efeito Fallout” e filmes do "Universo Cinematográfico da Marvel". Nós da 365 conversamos com ela sobre sua trajetória, mercado de trabalho e adversidades do ofício. Tati dá dicas para quem está começando, comenta sobre a indústria brasileira e revela ser positiva sobre o futuro da área, mas destaca a persistente desigualdade e conta que já chegou a trabalhar em grandes projetos onde era a única mulher do grupo técnico.

Tatiane sempre foi amante de efeitos gráficos. Se formou em Engenharia da Computação pela Unicamp e, concomitante ao curso, fez iniciação científica onde o objetivo era criar uma animação 3D para dispositivos móveis. Mostrando-se fiel ao campo, seu mestrado foi desenvolver atratividade de rostos em imagem. Tati criou um sistema para deixar os rostos mais atraentes, e foi durante essa época que ela participou do SIGGRAPH, em Los Angeles, uma das maiores conferências de computação gráfica do mundo. Foi a partir daí que Tati viu ser possível unir dois mundos que tanto amava: cinema e tecnologia.

Logo quando terminou o mestrado, a artista se mudou para os Estados Unidos e foi estudar na UCLA (Universidade da Califórnia) a parte de entretenimento que faltava para que ela conseguisse ingressar na área. A experiência também a ajudou entender o mercado e funcionamento da indústria no exterior e, principalmente, quais os papéis de cada profissional e como se encaixar nesse novo cenário muito distante da realidade brasileira. Seu trabalho mais recente chega aos cinemas ainda esse ano - o tão aguardado live action O Rei Leão.

Pergunta: Como propriamente funciona seu trabalho? Acredito que os efeitos nos filmes chamam a atenção de muita gente, mas poucos sabem como é o processo para chegar naquele resultado.

Resposta: Meu trabalho varia de projeto para projeto. Pode ser 3D, composição digital, embelezamento, envelhecimento ou rejuvenescimento. Têm projetos que o efeito final da cena só acontece quando finalizo o trabalho, e têm projetos que meu trabalho vai para as mãos de outros artistas. Por exemplo, numa cena 3D temos um artista que modela os objetos/personagens, depois esse trabalho vai para outro artista que coloca os esqueletos, e então segue para outro que vai animar esses modelos ou esqueletos, um outro que irá iluminar a cena, renderizar... são muitas camadas de processo.

Pergunta: Como ingressou no mercado de trabalho? Qual foi seu primeiro grande projeto?

Resposta: No começo eu fazia muito freelance para cineastas independentes, então por serem filmes independentes eu trabalhava direto no projeto, conversava com o diretor e via qual que era a ideia para cada cena, cada shot (plano), e com isso fui construindo portfólio e apliquei para entrar nos estúdios - comecei no Lola VFX. Meu primeiro filme foi da Marvel, O Homem Formiga e a Vespa, que saiu ano passado, e para mim foi bem especial porque eu já era uma grande fã. Agora lançou outro que trabalhei [Capitã Marvel], esse projeto é bem legal por se tratar de uma super-heroína, e nós fizemos um trabalho incrível com o Samuel L. Jackson, ele está com 70 anos atualmente, e acredito que conseguimos deixá-lo 30 anos mais novo. A parte mais legal desse trabalho de Efeitos (rejuvenescer/envelhecer), é permitir aos atores serem quem eles quiserem ser, sem comprometer em nada suas performances/atuações. O trabalho [da pós produção] é tão meticuloso que passa realidade para quem assiste, sem ferir a performance. É realmente mágico como tudo isso é possível, por isso é muito gratificante quando conseguimos realizar nosso trabalho com maestria.


Pergunta: Como é trabalhar em um meio majoritariamente masculino? Isso já interferiu no seu ofício?

Resposta: Eu vim de Engenharia, então achei que já estava preparada para o que viesse, só que me surpreendi um pouco, porque a área de efeitos especiais é bem fechada. Eu ouso dizer que é quase mais do que em engenharia. Cheguei a trabalhar em projetos que, por exemplo, eu era a única mulher do grupo que trabalhou no filme, a única técnica - não a única na área geral, porque hoje existem muitas mulheres ganhando nessa área de produção, assistente de direção, supervisoras de roteiro, mas alguém trabalhando na parte técnica mesmo, muitas vezes você pode ser a única. Ainda é bem restrito, eu acho que isso se deve sim a diversos fatores que o pessoal discute, mas é um pouco triste de ver, porque é uma área que a gente tem que ir ganhando espaço ainda, sabe? Então tudo é uma batalha, você tem de provar valor, você cresce de maneira diferente. É um desafio sempre. Pode ser intimidador se você vislumbra sua carreira e pensa “bom, quem que eu vou pegar de modelo aqui? ”, e aí você descobre que não tem, não tem uma modelo. Para você ter uma ideia, existem cada vez mais mulheres abrindo espaço, mas no Oscar apenas uma ganhou em Efeitos Especiais, e se eu se eu não me engano, só 3 ou 4 nomeações em todos esses anos de premiação. Se você pegar a lista de homem ali é gigantesca. Pode ser intimidador, mas não podemos nos apegar a coisas do passado e como foram, precisamos continuar crescendo e continuar abrindo portas, e acredito que acima de tudo, temos que estar conscientes. Então, se você entra numa equipe, abre a sala e 90% do que a compõe são homens, você tem de estar consciente do seu papel, consciente de que você está abrindo fronteiras, e quando abrimos fronteiras os caminhos são diferentes: você precisa pensar diferente, tem que mostrar e provar seu talento de formas diferentes, e isso vai dando abertura não só para você mas para outras mulheres também, que estão vindo ao lado e que estão vindo atrás, as das novas gerações. Acho que o importante é ter consciência, saber que não está de igual para igual ainda, mas que é possível, e temos que trabalhar para alcançar isso. Eu mesma, por exemplo, os melhores times que já trabalhei foram os que tinham maior diversidade, não só que tivesse um equilíbrio entre homem e mulher, mas que também tivesse uma boa mistura, culturalmente falando. Quando se consegue colocar um monte de gente diferente junta, os resultados que isso proporciona são incríveis.

Pergunta: O que você conhece da realidade do mercado brasileiro atual?

Resposta: Não estou inserida e nem trabalhando no mercado brasileiro, mas eu venho acompanhando, e o que eu posso dizer é que cada vez mais está tendo reconhecimento, e isso é muito importante. Estamos ganhando uma popularidade de fora também. Temos várias vertentes em que isso está acontecendo, claramente pra mim uma delas é a área que eu tenho interesse, que minha mão de obra está mais inserida, que é no mercado de animação. Tivemos aí a Rosana Urbes sendo premiada com a sua animação "Guida" no Annecy, que é o maior festival de animação do mundo. O Alê Abreu com "O Menino e o Mundo" também, foi indicado ao Oscar. Outra área que está crescendo é a de videoclipe, isso é bem legal, eles estão usando técnicas diferentes [no Brasil], tem uns que têm histórias... está se tornando uma área cada vez mais elaborada, com uma cinematografia melhor, com efeitos. E a parte de filmes também, é sempre uma batalha, mas cada vez mais o Brasil está tendo seu valor reconhecido fora e acho que isso alimenta a indústria interna pela popularidade. Claro, não tanto quanto a gente gostaria, não caminha numa velocidade rápida, mas sim, é um mercado crescente e promissor. É assim que eu vejo, a gente tem muito campo para crescer, muito para melhorar, mas o fato de já ganhar um reconhecimento é um passo enorme.

Outra notória produção da qual Tati participou é o "Christopher Robin - Um Reencontro Inesquecível", de 2018
Pergunta: Tati, qual dica você pode dar para quem está começando e pretende se consolidar na área de pós-produção?

Resposta: Para você se consolidar de fato na área de pós produção tem uma coisa que é fundamental: você tem de gostar de aprender o tempo inteiro; não um pouco, não é estudar e só ai começar a fazer, porque tudo se renova e essa é uma área que muda muito rápido. A tecnologia evolui e é preciso ser versátil, então as vezes você sabe fazer aquele efeito usando aquele determinado programa, aquele software específico, e aí você muda para outro estúdio e não é mais aquele software, eles não têm aquela licença ou simplesmente não gostam daquela estrutura de trabalho e você tem de fazer a mesma coisa usando outro programa. Tem de se permitir aprender, precisa saber fazer coisas de diferentes maneiras, é preciso ter esse jogo de cintura para estar sempre se renovando para permanecer no mercado. A cada dia surgem novas ferramentas, programas e maneiras de desenvolver a mesma coisa. É necessário se manter atualizado, senão você tá fora. Por isso acho que esse é o ponto mais importante, se você está nessa área e se essa é a área que você quer, você tem de estar sempre se renovando, estudando e aperfeiçoando alguma coisa, a demanda não para.

Shazam! (2019) - O olhar infantil como super-poder


Com exceção da universalmente aclamada trilogia do Cavaleiro das Trevas, dirigida por Christopher Nolan, as adaptações cinematográficas dos heróis da DC Comics sofrem, em maior ou menor grau, de uma certa dificuldade em acertar o tom das narrativas e personagens que busca adaptar. Nesse sentido, a missão de Shazam! (2019) era familiar. Porém, se contava com uma certa boa-fé do público, oriunda dos recentes sucessos de Mulher Maravilha (2017) e Aquaman (2018), tinha contra si a pouca fama e a mitologia inusitada do seu novo protagonista. Coube ao pouco expressivo David F. Sandberg, diretor até então restrito a filmes de terror, a tarefa de trazer o herói às telas. Poucas vezes o prognóstico desanimador de um filme se provou tão distante do seu resultado de fato. Shazam! é ótimo.

Ao reconhecer a mitologia um tanto boba do seu personagem-título, Sandberg constrói uma narrativa alicerçada nas perspectivas atípicas do órfão malandro Billy Batson (Asher Angel), e seu irmão adotivo Freddy (Jack Dylan Grazer), ambos garotos de de 14 anos. A idade do seus protagonistas faz com que o filme se dirija especialmente a um público mais infantil, suavizando complexidades narrativas e apostando em uma mensagem positiva bastante clara.

Após receber poderes de um mago moribundo (Djimon Hounsou), Billy pode se transformar em um super-herói com corpo de adulto apenas dizendo uma palavra mágica: Shazam! Seu poderoso alter-ego é interpretado por Zachary Levi, que empresta todo seu carisma à figura deste ridículo (no melhor sentido) super-homem, cujo maior desafio é, justamente, ser uma criança. Utilizando poderes e atitudes heróicas como uma metáfora para o amadurecimento, o roteiro de Henry Gayden e Darren Lemke não esconde seu referencial inspirador nos saudosos filmes coming of age oitentistas - especialmente Quero ser Grande (1988) - nas peripécias do herói e seu fiel companheiro, que fazem o que qualquer criança faria com superpoderes: divertir-se com eles, usando-os para se exibir na internet, fugir da escola e até ganhar uns trocados.

O chamado à maturidade, no entanto, vem com a chegada do maligno Dr. Thaddeus Sivana (Mark Strong), que controla representações monstruosas dos Sete Pecados Capitais. O inevitáveis confrontos são envoltos em uma bem-vinda ingenuidade que nunca perde de vista a intenção de tornar acessível aquilo que se vê - até mesmo no sentido literal, com a fotografia limpa e sem floreios de Maxime Alexandre. Não há grandes explicações para a mitologia do herói, porém a simplicidade do filme não deve ser confundida com falta de conteúdo. Há, no centro de tudo, uma bem conduzida e singela jornada de autodescoberta e entendimento de mundo.

Shazam! confirma os acertos do novo rumo da DC - o investimento em personagens, ideias e linguagens mais plurais, com a pressa em aplicar a hiper utilizada fórmula do “universo compartilhado” dando lugar à preocupação em contar boas histórias, sejam elas quais e como forem.

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