Nós (2019) - O horror de olhar para si

Em Corra! (2017) seu primeiro filme como diretor, Jordan Peele sinalizou interesse em um cinema fortemente imbuído de comentário social, mas também nitidamente enraizado em referências de um cinema de gênero e voltado para o entretenimento. A combinação foi um sucesso de público e crítica, e a expectativa para o próximo filme de Peele era grande. Em seu aguardado retorno em Nós (2019), o diretor se mantém fiel aos elementos basilares do seu cinema e se mostra ainda mais confortável com a tarefa de equilibrar e conciliar tais viéses dentro da narrativa que propõe.

Após sofrer um trauma na infância, Adelaide (Lupita Nyong'o) retorna ao local do ocorrido com o marido Gabe (Winston Duke) e os filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) para passar um fim de semana na praia. Contudo, a chegada de um grupo misterioso muda tudo e a família se torna refém de seus próprios duplos.

O fascínio filosófico gerado pela figura do duplo é inegável e surge de forma bastante recorrente ao longo da história das artes, como em O Médico e o Monstro, clássico da literatura gótica escrito por Robert Louis Stevenson. Aqui, a escolha de revisitar o conceito serve à um exercício de reflexão e autocrítica que surge a partir de uma incômoda questão: O que encontramos quando realmente olhamos para nós mesmos? 

A preferência pela reflexão mais ampla no lugar da crítica pontual torna o comentário social de Nós muito menos explícito que o de Corra!, criando para si um subtexto mais rico e menos taxativo. Nesse sentido, Peele demonstra ainda mais sua maturidade estética ao dar ao filme uma dimensão irônica que o desloca das expectativas do gênero de terror e o aproxima da linguagem autoral que está criando para si, disposto a trabalhar com a mescla de ingredientes aparentemente opostos tanto como as inúmeras reviravoltas no roteiro, que não se acanha de ser tão engraçado quanto é violento. Ainda que nem sempre transite entre tais extremos da melhor forma, o comprometimento com tal recurso já é mais do que suficiente para garantir um certo frescor na sua linguagem e sua narrativa.

De certa forma, Nós parece ser especialmente endereçado à parcela do público que encarou o sucesso de Corra! como um indicativo de uma melhora em nossa consciência coletiva. Embora confie no poder do cinema como ferramenta de contemplação, Peele sabe que os problemas que aborda são mais profundos e complexos, mas encontrou em sua afinidade com os "filmes de gênero" uma possibilidade de entregar, mesmo à parcela mais desatenta do público, uma catarse social disfarçada.

Embalado por uma potente trilha sonora e amparado por excelentes atuações - com destaque para Lupita Nyong'o -, Nós é a confirmação de que Jordan Peele é uma das vozes mais originais a surgir do cinema americano nesta década. Rotulado como o "próximo Spielberg", o diretor demonstra que, apesar da sua inegável bagagem cinematográfica e seu visível conforto em meio às referências estéticas e narrativas que utiliza, está mais interessado em ser o primeiro Jordan Peele. Quem ganha é o público.

Roma – as memórias de Cuarón expõem um tecido social delicado e opressor

A arte pode servir à diversas finalidades, consideramos seu contexto para entender qual lugar de uma obra no mundo, para a arte, para a sociedade e para a história. Com a proximidade da principal premiação da temporada, a poeira da polêmica parece finalmente ter baixado sobre Roma, que (assim como Infiltrado na Klan) faz opção pelo confronto, ainda de maneira subjetiva, para desmascarar o falso moralismo que acerca nossos costumes.

O filme começa com uma câmera estática apontando para o assoalho de uma garagem enquanto é lavada. A medida que água e sabão escorrem pelo piso, são notados reflexos de aviões que voam pelo céu da Cidade do México. Lentamente, essa câmera se move para revelar Cleo, uma moça de raízes indígenas que trabalha como criada na residência de uma família classe média-alta, residindo num pequeno cômodo aos fundos da casa. A partir dali, se desenrola a sua história, que é a mesma de milhares de mulheres do terceiro mundo como numa espécie de manifesto pela igualdade, justiça e fim da exploração no trabalho.

Cleo trabalha diariamente servindo seus patrões. Acordando cedo, preparando as quatro crianças da casa para a escola e fazendo as obrigações de limpeza e cozinha da família. Todos os dias, só se retira para descansar quando as luzes da casa de seus ‘senhores’ estão apagadas. Entre sorrisos, abraços e beijos daqueles com quem ela partilha seu tempo e se dedica a cuidar, também é repreendida com exaltação e rancor por Dona Sofia, chefe da família que acabara de ser deixada pelo marido que foi viver com a amante.

Concebido à partir das memórias de Alfonso Cuarón em sua infância, o título do filme é uma referência à Colônia Roma, distrito localizado em Cuauhtémomoc (que, por sua vez, é uma das demarcações territoriais da Cidade do México). O diretor dedicou inclusive, assim como fez nos créditos, o Leão de Ouro que recebeu no Festival de Veneza à Libo (Liboria Rodriguez), a real inspiração para Cleo, que cuidou do diretor em sua infância. O filme se passa na aurora dos anos 70, entre cartazes da Copa do Mundo espalhados, há também uma tensão permanente nas ruas da cidade que culminaria no Massacre de Corpus Christi.

Há muito coração em cada tomada do filme, muito disso é transmitido em função da fotografia preto e branco que, além de ambientar a época, acentua a concretude de sua história. As escolhas estéticas do diretor forçam, primeiramente, a imersão no universo daquela família. Não demora muito até que o espectador comece a se familiarizar com todos os cômodos da casa e com cada indivíduo que vive ali. Então, o longa faz crescer o desconforto no espectador ao expor Cleo a takes longos e lentos, sempre afastada da câmera que está em constante movimento para acompanhar seu permanente serviço.

Em sua primeira hora, Roma investe em desenvolver o universo em que se passa o filme para depois descarregar uma verdadeira tormenta de angústia. A partir do momento em que Cleo é abandonada por seu namorado no cinema e recebe a confirmação de que está grávida, ela se sente cada vez mais sufocada, sem deixar a subserviência. O mundo a sua volta a acompanha, as agonias de todos correm simultaneamente. Em uma obra como Roma, não se deve reduzir o filme a continuidade linear das situações, quando cada olhar, cada ordem da casa para Cleo que o autor coloca em cena e especialmente em cada vez que Cuarón funde a inocência dela com a das crianças - Toño, Paco, Sofi e Pepe – tem muita importância para assimilar toda a vida em ocorrência. Num momento especial, a empregada canta “Eu gostaria de ter tudo para colocar aos seus pés, mas nasci pobre e você nunca vai me amar” enquanto trabalha, antes de se fingir de morta e “gostar” ao brincar com Pepe.

Mesmo que apresentado e comentado por parte da crítica como um filme mais técnico que qualquer outra coisa, Roma é um retrato da vida abaixo dos trópicos que se abre para uma discussão sempre conveniente – acerca de nosso respeito para o próximo e de como esse comportamento vulgar pode se fazer raiz de nossos principais males enquanto sociedade. Mesmo que se tratando das memórias de seu autor, a família de Roma, nos anos 70 (período marcado pela repressão em todo o continente), é um perfeito microcosmo de como a ibero-américa ainda lida com a desigualdade e as relações humanas. Ao que parece, há muito o que ser discutido, sobre Roma e sobre nossas vidas.

Uma juventude perdida e efervescente: "Mid90s" é sobre Ser e Pentencer

Uma das necessidades básicas da humanidade é o sentimento de pertencimento. Precisamos de quem nos acolha, nos entenda e nos aceite exatamente como somos. Na infância ou adolescência, é quando esse sentimento emerge de maneira mais profunda. É a fase onde somos capazes de cometer as maiores irresponsabilidades em função de agradar os amigos ou uma paquera. Em seu primeiro filme como diretor, Jonah Hill nos traz essa reflexão sob a perspectiva de uma criança (Sunny Suljic), Stevie, que cresce em meio a uma gangue de skate. Mid90s é um belo coming of age, cativante e que explora uma gama incrível de sentimentos do espectador, mas ainda assim enfrenta problemas de concepção.
   
Mid90s não se escora em qualquer nostalgia para contar uma história honesta sobre como a juventude pode ser inquieta entre as festas e decepções. O roteiro e a cinematografia do filme captam muito bem um espírito noventista de MTV, mostrando uma juventude enérgica, porém desnorteada e sem qualquer vínculo com a realidade. Crescer naqueles anos era também dedicar parte do tempo aos sonhos (de ser rockstar, jogador de futebol, estrela do cinema...) que certamente iriam se concretizar.

Ray (Na-Kel Smith) é o personagem mais interessante da história, um skatista amador que vislumbra uma carreira no esporte e, destoando de seus companheiros, enxerga a vida de maneira responsável. Ele age como a consciência de Stevie, aconselhando o pequeno amigo que, normalmente, se sente injustiçado e tenta a todo momento se auto afirmar pela rebeldia. Ray e Stevie desenvolvem uma relação interessante contrapondo especialmente dois de seus parceiros: Fuckshit (Olan Prenatt) e Ruben (Gio Galicia). Há também Fourth Grade (Ryder McLaughlin), o mais calado e alheio deles, e o irmão de Stevie, Ian, vivido por Lucas Hedges.

Mesmo que a tendência a associação e agrupamento seja um comportamento comum ao longo de toda a vida, é na juventude que isso exerce um papel fundamental na construção da imagem do indivíduo. Para viver a adolescência, o jovem confronta sua família, desafia autoridades e pinta o que for necessário em busca de reconhecimento e aprovação social. É nessa transição de fases que começamos a experimentar as alegrias e dores que estão por vir. Aos olhares dos personagens de Mid90s, eles estão vivendo o grande momento de suas vidas – e o que eles têm para eles, são uns aos outros. Contando sua história, Jonah Hill encarna o machismo tóxico em Ruben; em Fuckshit, há a irresponsabilidade mais autodestrutiva de todas; Ray tem uma visão de mundo séria e centrada, sabe a hora de brincar e a de falar sério; Fourth Grade sabe de suas limitações, mas vive a paixão pelas filmagens e se dedica a ela; Stevie só quer ser amigo dessas pessoas. Entre os passeios de skate, batidas policiais e festas com as garotas, eles fazem escolhas, e todas elas trazem consequências.

É verdade que Mid90s não é bem o melhor filme que poderia ser, mas é bem estruturado e em seus pouco menos de 90 minutos explora bem as vontades e incertezas que até hoje vivem intimamente com quem passou por aqueles anos. É agridoce, tal qual sua proposta. Como obra, havia mais o que se desenrolar, a execução de ar documental não é tão bem sucedida e presta um serviço banal ao tratar do modo como Stevie se sente. Isso empobrece o que o filme tem de melhor – que são os laços da juventude com a inocência. Todavia, seus pontos favoráveis são maiores que isso. Jonah Hill soube trabalhar com competência os ares da vida antes da internet e desenvolver uma história bem resolvida sobre o entendimento do adolescente para sua (ir)responsabilidade com vida e as pessoas ao seu redor.

A Trajetória de Hannibal Lecter no Cinema

Hannibal, ou respeitosamente dizendo, Doutor Lecter, é um perfeito exemplo de personagem antagônico do cinema. Dividindo opiniões do público desde sua primeira exibição, Hannibal foi tão bem construído e desenvolvido que desperta ódio, compreensão e até mesmo pena nos espectadores. Mas como um personagem com tantas... peculiaridades e feitos dignos de um psicopata conseguiu se tornar um anti-herói e ainda conquistar carisma? A resposta é a mesma que fez Clarice Starling ficar dividida em suas decisões: apesar de toda criatividade para perversidade, Hannibal carrega traços de humanidade. E mais para frente, depois da trilogia estrelada por Anthony Hopkins, tivemos um prequel (falamos sobre essa e outras terminologias aqui), ou seja, um filme exclusivo para contar a “história antes da história”, que mostra a juventude de Hannibal, onde se esforçam para explicar suas motivações.

O ator escocês Brian Cox vive Hannibal nessa primeira adaptação para o cinema.
Sua carreira é longa. A aparição inicial de Hannibal nas telas foi em 1986, em um papel secundário. Se tratava da primeira adaptação de Dragão Vermelho – ou Caçador de Assassinos, como veio para o Brasil. O livro já tinha sido lançado em 1981 pelo autor responsável por toda série do Dr. Hannibal Lecter, Thomas Harris. Ao todo são quatro livros, que ganharam adaptações cinematográficas na ordem em que foram sendo lançados, mas que não é a ordem cronológica da história.

Nessa estreia do personagem no cinema, sua notoriedade é ofuscada pela presença de Will Graham. O filme prioriza o agente do FBI e seu esforço na caça de um serial killer que está amedrontando toda cidade e desafiando a polícia.

Foi pelo papel do Dr. Lecter que Hopkins conquistou seu Oscar de Melhor Ator.
O sucesso de Hannibal acontece de fato em O Silêncio dos Inocentes, de 1991 (primeira e única adaptação do livro de 1988). Indicado a sete categorias do Oscar e vencedor das cinco principais, o longa é até hoje o único do gênero suspense a levar a estatueta de Melhor Filme. Jodie Foster protagoniza um dos papéis mais memoráveis de sua carreira, a eterna detetive Clarice Starling. Dirigido por Jonathan Demme, a produção também ficou conhecida por não poupar cenas de grande destaque para chocar o espectador, acompanhadas por diálogos intensos e sagazes.

Anthony Hopkins se preparou para o papel com tudo o que teve direito: visitou prisões, estudou os arquivos que disponibilizaram acesso sobre assassinos em série e participou de julgamentos referentes a casos de serial killer. O ator assumiu com maestria o personagem e, mesmo ficando em cena por cerca de apenas 17 minutos em todo filme, Hopkins desenvolveu características particulares e marcantes para o antagonista, como a escolha por piscar poucas vezes em cena, com o propósito de mostrar o quanto o psicopata é observador e atento às expressões, movimentos e detalhes que o cercam.

O ator conseguiu criar um arco dramático tão interessante e cheio de particularidades para o canibal que "O Silêncio dos Inocentes" influenciou outras produções do gênero suspense moderno e o personagem, com insanas oscilações de humor dentro da sua loucura, provou que nem sempre o vilão precisa mostrar seu lado humano, injustiçado ou sofredor para ganhar a simpatia do público.

Hannibal, mesmo em meio a sua insanidade, demonstra em poucas cenas uma certa afeição por Clarice.
O autor-criador de Hannibal, Thomas Harris, demorou 10 anos para lançar a sequência de "O Silêncio dos Inocentes". Só em 1999 foi apresentado ao público o livro “Hannibal”, no qual, enfim, Dr. Lecter assume o protagonismo. A história parte do contexto onde deixou em aberto: Hannibal está há sete anos foragido da polícia, trabalhando confiante e despreocupado na biblioteca de uma rica família na Itália. Já Clarice Sterling nunca mais se esqueceu de suas conversas com o psicopata, e vive sendo atormentada pela lembrança da voz de Hannibal em sua mente. No entanto, para o milionário Mason Verger, uma vítima sobrevivente ao ataque do psicopata, também é impossível se esquecer do criminoso, já que carrega marcas pelo corpo e um rosto totalmente desfigurado. Verger nunca desistiu de se vingar, e a partir de sua constante investigação, ele descobre que a única maneira de encontrar Hannibal é usando Clarice como isca.
O filme foi lançado em 2001 e teve mudanças radicais no corpo da produção, Jonathan Demme decidiu não assumir a continuação por considerar a história mais violenta que a anterior, e Jodie Foster preferiu ficar de fora justificando que tinha projetos para dirigir um filme seu – mas existem rumores sobre a atriz não ter aprovado o final da história e o destino de sua personagem. Demme foi então substituído por Ridley Scott (de "Blade Runner" e "Alien"), e Julianne Moore, superando fortes candidatas como Cate Blanchett e Sandra Bullock, ficou com o papel da detetive.

Sempre há algum comprometimento com a produção quando um personagem já marcado no imaginário do público é substituído pela imagem de outro ator na continuação. O papel de Clarice Starling é disparadamente mais otimizado nesse filme e sua relação com Hannibal é posta como paradoxal, colocando constantemente a prova os valores da personagem. Ridley Scott procura seguir a qualidade do filme anterior, e consegue, na medida do possível, entregar ao público uma sequência coerente com ênfase no que os espectadores tanto esperavam que fosse mais exposto e desenvolvido: a inteligência macabra de Hannibal.

As duas versões de Dragão Vermelho tiveram o mesmo diretor de fotografia, Dante Spinotti.
Com receio de dispersar o público – já cansado por esperar 10 anos para uma continuação -, e incrédulos com o lucro que a sequência arrecadou (cerca de US$ 350 milhões cobrindo rapidamente o orçamento de US$ 80 milhões), os produtores decidem por fazer um remake de "Dragão Vermelho". Estreado em 2002, o longa se trata de um prequel, contando a história que antecede ao "Silêncio dos Inocentes". O detetive do FBI, Will Graham (Edward Norton), é o responsável por prender o ex-psiquiatra Hannibal, mas quase é morto pelo psicopata na tentativa de capturá-lo. Após o incidente, Will se afasta da agência onde trabalhava, mas se vê obrigado a voltar ao cargo quando uma série de assassinatos começa a apavorar a população e não há nenhum policial capaz de encontrar um suspeito. O detetive sabe que a única maneira de achar o criminoso conhecido como “Fada do Dente” (Ralph Fiennes) é contando com a ajuda de Hannibal para compreender o raciocínio desse serial killer. 

Brett Ratner ("X-Men 3", "Hércules") assume a direção. O filme é o de menor sucesso e reconhecimento da trilogia estrelada por Anthony Hopkins, mas o papel desempenhado por ele segue o mesmo “padrão de qualidade” dos anteriores. Nessa última aparição de Hopkins com Hannibal, ele divide o protagonismo com Will Graham. A relação entre os personagens é um ponto forte na trama, o detetive parece estar sempre ligado na perspicácia do psicopata que, por sua vez, também enxerga inteligência em Graham.

A interdependência entre os dois também é desenvolvida na série de TV “Hannibal”, de 2013 – disponível na Netflix. O drama abre espaço para relançar o universo de Hannibal, mas a produção procura explorar a relação entre as duas fortes personalidades psicopata-detetive. O objetivo do roteirista Bryan Fuller era usar como pano de fundo a premissa de Dragão Vermelho, mas potencializar o jogo de gato e rato, trazendo novamente uma personalidade já consagrada no imaginário das pessoas, com a finalidade de reafirmar a empatia do público pela figura, explorar os jogos mentais do psicopata e desvendar a relação perturbadora entre os dois personagens.

Take do filme "Hannibal - A Origem do Mal", no qual o ator Gaspard Ulliel remete a clássica cena de "O Silêncio dos Inocentes".
O escritor foi desenvolvendo o personagem conforme escrevia os livros, por isso as obras não são em ordem cronológica. A fim de trazer uma motivação aos atos de Hannibal, em 2006 Thomas Harris lança "Hannibal – A Origem do Mal", que logo vira produção cinematográfica, estreada em 2007. O ator Gaspard Ulliel (protagonista de Saint Laurent) fica responsável por dar vida ao jovem Hannibal, e Peter Weber (diretor de "Moça com Brinco de Pérola") tenta guiar essa filmagem. A premissa é simples: após nosso protagonista vivenciar um episódio traumático, ele sai irreconhecível desse acontecimento, todo o resto do longa metragem tem como finalidade justificar o perfil psicopata de Hannibal. Numa tentativa de dizer “ele é louco, mas nem sempre foi assim” o autor prejudica a saga e foge totalmente da construção que Anthony Hopkins tanto pleiteou para termos do personagem. 

Com vilões sem motivação, romance forçado e excesso de sentimentalismo, o filme soa como uma fanfic ou até, talvez, de um ponto de vista positivo, como uma história nova, sem nenhuma ligação com as anteriores. Rompendo totalmente com o universo de "O Silêncio dos Inocentes", podemos consumar elogios no esforço de Gaspard Ulliel em recriar os gestos de Hopkins e no fato do filme ser tecnicamente razoável.

Eternizado como Hannibal, Anthony Hopkins revelou em uma entrevista em 2016 à revista americana Entertainment Weekly que se arrependeu de ter aceitado fazer Hannibal. 10 anos depois de "O Silêncio dos Inocentes", o ator ainda diz que deveria ter ficado apenas no primeiro filme da saga. É inegável que o serial killer é o principal personagem de sua carreira, e esse é o ônus por interpretar um antagonista com absurda competência, assim com Jack Nicholson o fez em "O Iluminado" e Anthony Perkins em "Psicose". O papel será sempre associado ao ator e seu espetáculo de performance ultrapassará gerações, o que podemos supor ser improvável que o público aceite uma nova atuação que ouse substituir Hopkins em um possível remake.

Como um dos vilões mais temidos de todos os tempos, Hannibal permanece na fantasia dos fãs. O serial killer cheio de singularidades, mesmo depois de anos, continua divergindo pontos de vista sobre seu temperamento, e como personagem bom é aquele que manipula o próprio público, ele é lembrado pelos cinéfilos como o exemplo perfeito de vilão contraditório, inspirando novas figuras do gênero e movendo análises que tentam explicar o efeito Hannibal com o mundo.

Climax (2018) e a histeria coletiva

O diretor argentino Gaspar Noé manteve-se fiel a sua linguagem cinematográfica e temática em seu novo longa, Climax (2018), que apresenta a reunião de um grupo de dançarinos de rua em uma escola para um último ensaio coreográfico, seguido de uma festa de celebração. O ponto de virada ocorre quando as personagens começam a se sentir estranhas, e concluem que foram drogadas ao consumir uma sangria “batizada” – a única bebida disponível.

Segundo o diretor, a história foi dividida em duas partes - de maneira semelhante a “Nascido Para Matar” (1987) de Stanley Kubrick - que apesar de dialogarem entre si são claramente antagônicas. A primeira metade introduz as personagens e os relacionamentos já estabelecidos no grupo ao público, e reserva uma porção generosa para exibir a performance dos dançarinos com planos longos que são importantes para a linguagem visual do filme. A habilidade e singularidade na dança foi o principal critério de seleção do casting de atores, sendo “Climax” a primeira experiência na atuação para a maior parte do elenco. Como resultado, a coreografia é extremamente competente e provocativa, e compõe o primeiro ponto alto da película.

As escolhas de Noé e seu diretor de fotografia habitual, Benoît Debie (que também atuou em “Irreversível”, “Viagem Alucinante” e “Love”), seguem o mesmo estilo das películas anteriores, apresentando uma câmera subjetiva frenética que não parece presa a qualquer eixo e poderia muito bem ser o ponto de vista de um mosquito alcoolizado, além de planos sequência/cortes invisíveis que dialogam perfeitamente com a exibição. Outra marca registrada do diretor se mostra presente desde o início: todos os conflitos do círculo social são sexuais.

Em contrapartida, a segunda parte do longa é marcada por uma exponencial degradação psicológica das personagens até atingir um clímax (o título não é leviano) de total ruptura moral e retorno à barbárie – o que já era esperado de Noé. Uma das garotas (Selva, interpretada por Sofia Boutella) começa o boato de que a sangria está batizada, provavelmente com LSD (ácido lisérgico, um potente alucinógeno), o que leva parte do grupo a uma mudança imediata de comportamento e dá início a uma onda de violência desmedida em busca do responsável.

Noé explora absurdamente bem a relatividade/subjetividade do efeito da droga na psique humana: enquanto alguns se tornam agressivos, paranoicos e confusos, outros parecem entrar em um profundo êxtase. A câmera subjetiva torna o espectador cúmplice da experiência, mas fornece apenas as reações das personagens – deixando a imaginação se encarregar de completar as informações do delírio coletivo.


Nesse momento entra o segundo ponto alto do filme: mesclado a todos os elementos gráficos já esperados do diretor (muito sangue, violência e sexo), que vão se intensificando no decorrer da narrativa, a linguagem corporal dos dançarinos adquire um elemento medonho e diabólico. Os mesmos movimentos que encantam na coreografia da introdução agora são apresentados como uma manifestação de delírio e descontrole, banhados em uma luz que recorda “Viagem Alucinante” ou “Irreversível”, com forte uso de vermelho e azul, mas que aqui parecem evocar espíritos possuídos dançando no inferno – uma escolha estética que funciona perfeitamente.

Como já citado em um texto anterior sobre o cinema de Gaspar Noé, o diretor domina as ferramentas necessárias para causar desconforto. Se em “Sozinho Contra Todos” (1998), seu primeiro longa, extrapola seus recursos no campo moral, em “Climax” o faz no campo visual e no inconsciente da psique: a obra poderia ser considerada um terror psicológico, que força o espectador a se tornar consciente (dentro das limitações) de suas próprias paranoias e delírios em consequência de sua identificação com as personagens.

A intenção por trás de “Climax” se torna ainda mais transparente na fala do próprio Noé, que afirma categoricamente não se tratar de um filme sobre o uso indevido de drogas ou de uma “bad trip” exagerada, e sim de um processo de histeria coletiva que funciona como uma fábula: um determinado grupo está aparentemente bem, até que algo ocorre e desencadeia essa paranoia descontrolada, algo que ele compara com o que ocorre em situações de guerra ou revolução. A película termina sem confirmar ao espectador se a sangria estava ou não “batizada” – o fato em si é menos importante que seus efeitos.

Vale ressaltar que a obra traz um elenco de não-atores que, segundo o diretor, não estavam sob o efeito de qualquer substância durante as filmagens, e entregam um resultado crível e consistente, digno de reconhecimento. Uma empreitada experimental interessante e bem executada, agregando mais um título provocativo à filmografia de um dos diretores mais polêmicos em atividade. 

Bolão do Oscar 2019

O BOLÃO DO OSCAR chegou em sua 6ª edição! Uma parceria 365 Filmes e Ombrelo, com apoio da DarkSide Books.

Faça suas apostas e concorra a diversos prêmios. E o melhor: nesta edição, você tem ainda mais chances de ganhar. Premiaremos os dois jogadores que acertarem o maior número de categorias e realizaremos um sorteio entre todos os demais. Se você acredita que será difícil acertar nas apostas, ainda sim tem chances de sair premiado pelo sorteio. Mas capriche para conquistar o maior dos prêmios!

Para participar, basta curtir as páginas 365 Filmes e Ombrelo no Facebook (ou Instagram), preencher o formulário (abaixo do regulamento) e ficar na torcida!


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REGULAMENTO

O participante deve:
- Curtir as páginas 365 Filmes e Ombrelo no Facebook ou Instagram.
- Residir em território nacional.
- Preencher corretamente o formulário abaixo, votando em todas as categorias, até a etapa final com a mensagem de confirmação.
- Utilizar um endereço de e-mail válido, que será utilizado para confirmação da autenticidade do participante.

O vencedor do Prêmio 1 (1º lugar / Bolão) está automaticamente impossibilitado de concorrer ao Prêmio 3 (Sorteio).
Cada participante só poderá votar uma única vez. Caso contrário, será automaticamente eliminado.
Qualquer tentativa de fraude acarretará imediata eliminação do participante.
Ao se inscrever, o participante autoriza a eventual divulgação de seu nome em material publicitário nos meios parceiros.
A votação encerra-se às 23:59 do dia 23 de Fevereiro de 2019.

PROCESSO

- Bolão
O vencedor do 'Prêmio 1' será o participante que mais pontuar.
O vencedor do 'Prêmio 2' será o 2º participante que mais pontuar.

Todas as categorias têm pontuação igual a 01.

Em caso de empate, o método de desempate será por peso* das categorias, na ordem presente no formulário:
Melhor Filme - 05 pontos
Melhor Diretor - 04 pontos
Melhor Ator - 03 pontos
Melhor Atriz - 03 pontos
Melhor Ator Coadjuvante - 02 pontos
Melhor Atriz Coadjuvante - 02 pontos
As demais tem peso igual a 01.

* - as pontuações acima só serão consideradas em caso de empate.
Se mais de uma pessoa acertar todas as 21 categorias, o vencedor será definido por sorteio.

- Sorteio
O vencedor do 'Prêmio 3' será aquele que for sorteado entre todos os participantes, independente da pontuação que fizer no Bolão.
Cada participante terá um cupom, igual ao número respectivo à ordem de participação. Ex: o cupom da 15º pessoa a se inscrever será o de nº 15.

RESULTADO

O resultado será divulgado no dia 25 de Fevereiro (segunda-feira), aqui no blog e nas redes sociais da 365 Filmes e Ombrelo.
Os vencedores serão também comunicados por e-mail e deverão informar endereço brasileiro válido para envio dos prêmios.

PRÊMIOS

Prêmio 1 - 1º lugar no Bolão

Camiseta 365 (escolhida pelo vencedor)
Almofada 365 - Frida Kahlo
Bolsa 365 - Diretores
Caderninho 365 - Amélie Poulain
Pote de Pipoca 365
LIVRO - Drácula (Oferecido pela DarkSide Books)
LIVRO - O Livro do Cinema
DVD - Pantera Negra
DVD - La La Land
DVD - Beleza Americana
DVD - Divertida Mente

Prêmio 2 - 2º lugar no Bolão

Camiseta 365 (escolhida pelo vencedor)
Caderninho 365 - Na Natureza Selvagem
Pote de Pipoca 365
LIVRO - Candyman (Oferecido pela DarkSide Books)
LIVRO - A História do Cinema Para Quem Tem Pressa
DVD - Bonequinha de Luxo
DVD - Bastardos Inglórios

Prêmio 3 - Vencedor do Sorteio

PÔSTER A3 - Tarantino's Fighter
LIVRO - O Colecionador (Oferecido pela DarkSide Books)
DVD - Casablanca
DVD - Um Estranho no Ninho
DVD - O Palhaço

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